{"id":7802,"date":"2019-10-25T17:21:35","date_gmt":"2019-10-25T20:21:35","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/propaganda-da-febraban-e-enganosa-diz-instituto-do-consumidor\/"},"modified":"2019-10-25T17:21:35","modified_gmt":"2019-10-25T20:21:35","slug":"propaganda-da-febraban-e-enganosa-diz-instituto-do-consumidor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/propaganda-da-febraban-e-enganosa-diz-instituto-do-consumidor\/","title":{"rendered":"Propaganda da Febraban \u00e9 enganosa, diz Instituto do Consumidor"},"content":{"rendered":"<p>Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) considera \u201cenganosa\u201d a campanha Papo Reto, veiculada pela Federa\u00e7\u00e3o Brasileira de Bancos (Febraban). A organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental (ONG), que tem como um dos objetivos a \u00e9tica nas rela\u00e7\u00f5es de consumo, acredita que a propaganda e os materiais divulgados \u201cinduzem o consumidor a acreditar que \u00e9 o respons\u00e1vel pelo endividamento em que o pa\u00eds est\u00e1 hoje\u201d.<\/p>\n<p>\u201cA publicidade em hor\u00e1rio nobre, com pessoas de credibilidade nacional e com o mote de educa\u00e7\u00e3o financeira, culpa o consumidor pela situa\u00e7\u00e3o que vive e isenta os bancos da concess\u00e3o de cr\u00e9dito irrespons\u00e1vel e dos juros altos\u201d, ressalta a economista Ione Amorim, do Idec.<\/p>\n<p>Em um cen\u00e1rio de 63 milh\u00f5es de pessoas inadimplentes, de acordo com levantamento da Serasa Experian, milhares de devedores recorrem aos bancos na tentativa de resolver seus problemas. Em vez disso, acabam ainda mais encalacrados.<\/p>\n<p>Um cen\u00e1rio que, diante do recente contexto econ\u00f4mico, poderia ser menos sofrido se as institui\u00e7\u00f5es financeiras seguissem o movimento da macroeconomia, uma vez que a taxa b\u00e1sica de juros, a Selic, apresentou a maior queda na s\u00e9rie hist\u00f3rica do Banco Central, chegando a 5,5%, com previs\u00e3o de atingir 4,5% at\u00e9 o final do ano.<\/p>\n<p>\u201cOs v\u00eddeos da Febraban mostram o comprometimento dos bancos com os clientes e apontam solu\u00e7\u00f5es para as pessoas n\u00e3o se endividarem, mas esse \u2018compromisso\u2019 das institui\u00e7\u00f5es morre a\u00ed. Na realidade, o que a gente vivencia \u00e9 um cen\u00e1rio em que 70% das opera\u00e7\u00f5es de cheque especial s\u00e3o impostas pelo banco. A realidade \u00e9 de juros de 300% cobrados pelos bancos, mesmo com a Selic mais baixa da hist\u00f3ria\u201d, explica a economista.<\/p>\n<p>Ainda segundo ione Amorim, \u201ch\u00e1 o oportunismo em um momento no qual a economia est\u00e1 paralisada para explicar o contraponto do desemprego e endividamento dos brasileiros com o alto lucro dos bancos\u201d.<\/p>\n<p>A Febraban representa 119 institui\u00e7\u00f5es, sob o pretexto de \u201ceduca\u00e7\u00e3o financeira\u201d. A federa\u00e7\u00e3o contratou Pedro Bial, um dos apresentadores com cach\u00ea mais alto da televis\u00e3o brasileira, com a promessa de levar \u00e0s pessoas um jeito simples de falar sobre juros e equilibrar as contas.<\/p>\n<p>A campanha Papo Reto na TV reuniu oito inser\u00e7\u00f5es de 3 minutos veiculadas nos intervalos do programa Fant\u00e1stico entre os dias 18 de agosto e 6 de outubro. Seguindo o pre\u00e7o de tabela, o an\u00fancio teria custado R$ 31,5 milh\u00f5es. Nem a ag\u00eancia de publicidade respons\u00e1vel pela pe\u00e7a nem a Globo ou a Febraban quiseram falar sobre os valores.<\/p>\n<p>Mas, na verdade, o papo-reto \u00e9 que a Febraban usou artif\u00edcios de ret\u00f3rica para maquiar os n\u00fameros. Isso \u00e9 dito por especialistas. Al\u00e9m da campanha na televis\u00e3o, a federa\u00e7\u00e3o mant\u00e9m um portal criado para a divulga\u00e7\u00e3o de dados, v\u00eddeos, explica\u00e7\u00f5es e um livro de 236 p\u00e1ginas que pode ser gratuitamente baixado por qualquer cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>No livro Como Fazer os Juros Serem mais Baixos no Brasil, a Febraban compara a queda da Selic com a redu\u00e7\u00e3o da taxa livre dos bancos. Diz que as institui\u00e7\u00f5es diminu\u00edram essa taxa espec\u00edfica duas vezes mais que a Selic. E declara: \u201c\u00c9 matem\u00e1tica pura\u201d. Para chegar ao denominador comum que lhe interessa, a Febraban comparou pontos percentuais com porcentagem. Para leigos, a manobra pode passar despercebida. Mas justamente a\u00ed tem uma pegadinha que afasta o resultado do que deveria se esperar em uma opera\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia exata.<\/p>\n<p>At\u00e9 maio de 2018, quando a taxa b\u00e1sica de juros, informada pelo Banco Central, caiu de 14% para 6,5%, a diferen\u00e7a foi de 7,5 pontos percentuais. Isso significa que, no per\u00edodo considerado, a Selic havia despencado 53,6%.<\/p>\n<p>A Febraban, por exemplo, quer fazer a popula\u00e7\u00e3o acreditar que a taxa livre dos bancos (que utiliza recursos da poupan\u00e7a, inclui empr\u00e9stimos pessoais e financiamentos) caiu duas vezes mais que a Selic. Afirma, em sua publica\u00e7\u00e3o, o seguinte: \u201cEm termos absolutos, a queda da taxa livre dos bancos foi de 18,26 pontos, quase duas vezes maior [do que a Selic]. Passou de 53,8% para 35,6% ao ano\u201d. O problema \u00e9 que a federa\u00e7\u00e3o compara alhos com bugalhos. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel tra\u00e7ar um paralelo entre pontos percentuais e porcentagem.<\/p>\n<p>Enquanto a queda da Selic foi de 53,6%, a da taxa livre dos bancos alcan\u00e7ou apenas 34%. Na matem\u00e1tica propriamente dita, uma queda de 53,6% ser\u00e1 sempre maior que uma queda de 34%.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um jeito f\u00e1cil de enganar as pessoas sem nenhuma evid\u00eancia de queda proporcional. A compara\u00e7\u00e3o em si j\u00e1 \u00e9 um absurdo, e ela se repete diversas vezes no documento da Febraban. Mas o mais grave \u00e9 o nosso dinheiro valer cinco vezes mais para os bancos (considerando a taxa m\u00e9dia de juros das opera\u00e7\u00f5es contratadas, que est\u00e1 em 25,1%, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Selic de 5,5%). Eles repassam todos os custos, at\u00e9 das perspectivas de endividamento\u201d, analisa o economista Roberto Bocaccio Piscitelli, professor da Universidade de Bras\u00edlia (UnB).<\/p>\n<h3>Dinheiro mais barato X Repasse mais caro<\/h3>\n<p>Quando o especialista afirma que o dinheiro vale cinco vezes mais para o banco, ele se refere ao chamado spread banc\u00e1rio. O spread banc\u00e1rio \u00e9 a diferen\u00e7a entre o custo de capta\u00e7\u00e3o da moeda e o valor que os bancos efetivamente cobram de quem recebe o cr\u00e9dito. As institui\u00e7\u00f5es financeiras justificam que os percentuais aplicados levam em conta uma composi\u00e7\u00e3o formada por custo de capta\u00e7\u00e3o, inadimpl\u00eancia, despesas administrativas, tributos e fundo garantidor, al\u00e9m da margem financeira dos bancos.<\/p>\n<p>Na tentativa de explicar os c\u00e1lculos, a federa\u00e7\u00e3o se vale de uma compara\u00e7\u00e3o hipot\u00e9tica e de apelo popular. Por exemplo: o pre\u00e7o de um carro se d\u00e1 a partir da soma de in\u00fameros componentes, assim como o custo de se emprestar dinheiro. Se h\u00e1 varia\u00e7\u00f5es nos diferentes elementos, elas v\u00e3o, por \u00f3bvio, implicar no valor final do autom\u00f3vel.<\/p>\n<p>No livro editado pela Febraban, o mesmo racioc\u00ednio \u00e9 usado para explicar o com\u00e9rcio do dinheiro, levando-se em considera\u00e7\u00e3o o \u201craio-X do spread\u201d. Mas, a\u00ed h\u00e1 outra inconsist\u00eancia. Dinheiro \u00e9 dinheiro. N\u00e3o varia a mat\u00e9ria-prima. Ou seja, a compara\u00e7\u00e3o com o carro \u00e9 impr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Com essas justificativas, a federa\u00e7\u00e3o ressalta que a Selic tem representatividade pequena na composi\u00e7\u00e3o do spread, que seria apenas uma fatia da pizza. De acordo com o documento, a principal \u201cculpada\u201d pelos juros altos seria a inadimpl\u00eancia. \u201cA vil\u00e3\u201d, como denomina o documento da Febraban.<\/p>\n<p>A Febrabran considera o peso da inadimpl\u00eancia, das despesas administrativas, dos tributos e fundo garantidor de cr\u00e9dito, da margem financeira (que indica o lucro dos bancos) e do custo total do cr\u00e9dito. O valor de capta\u00e7\u00e3o \u00e9 dado pela taxa Selic. E a alega\u00e7\u00e3o da Febraban \u00e9 que a representatividade da Selic ficou cada vez menor na composi\u00e7\u00e3o da taxa de juros conforme ela foi caindo devido \u00e0 pol\u00edtica do Banco Central.<\/p>\n<p>\u201cQuando se deixa de lado o custo de capta\u00e7\u00e3o (mais influenciado pela Selic) e se analisa o spread (cobrado pelos bancos no cr\u00e9dito que fornecem), fica mais claro o custo da inadimpl\u00eancia para o pa\u00eds. Entre 2015 e 2017, de acordo com o Indicador de Custo do Cr\u00e9dito (ICC) do Banco Central, o peso m\u00e9dio da inadimpl\u00eancia no spread banc\u00e1rio foi de 37,4%, seguido de longe por itens como despesas administrativas (25%) e tributos e fundo garantidor de cr\u00e9dito (22,8%). Por \u00faltimo, veio a margem financeira dos bancos, de 14,9%\u201d, diz a Febraban em seu livro.<\/p>\n<h3>Responsabilidade de quem?<\/h3>\n<p>Mas como um bom pagador pode se responsabilizar por um mau pagador? At\u00e9 que ponto a responsabilidade \u00e9 do cliente e n\u00e3o do banco? Para o professor licenciado da UnB e membro do Conselho Regional de Economia (Corecon-DF) Newton Marques, ao longo dos anos, todas as vezes que os bancos s\u00e3o questionados sobre suas taxas, h\u00e1 uma justificativa diferente e a culpabiliza\u00e7\u00e3o de algum fator externo.<\/p>\n<p>\u00a0\u201cEstudo o sistema banc\u00e1rio h\u00e1 30 anos e posso dizer que os bancos agem como um cartel, pois fixam as taxas de juros que eles querem. A\u00ed eu pergunto: se a Selic hoje fosse a zero, as taxas dos bancos cairiam? Quase nada. Muito provavelmente haveria uma outra justificativa.\u201d<\/p>\n<h3>NEWTON MARQUES, ECONOMISTA<\/h3>\n<p>O especialista acredita que a rela\u00e7\u00e3o da inadimpl\u00eancia na composi\u00e7\u00e3o da taxa \u00e9 um problema gerado pelas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es. \u201cQuando n\u00e3o se faz uma an\u00e1lise criteriosa, os bancos compram os riscos. Os n\u00fameros s\u00e3o apenas para jogar uma cortina de fuma\u00e7a. Os juros s\u00e3o alt\u00edssimos, por isso h\u00e1 inadimpl\u00eancia\u201d, analisa o especialista.<\/p>\n<p>O Brasil, atualmente, tem uma taxa de endividamento oito vezes maior que a dos Estados Unidos. Enquanto o pa\u00eds amarga 4,5%, os Estados Unidos t\u00eam um percentual de 0,6% sobre o total de ativos de cr\u00e9dito. A maior consequ\u00eancia do endividamento \u00e9 o aumento do desemprego e a desacelera\u00e7\u00e3o da economia, com preju\u00edzo ao com\u00e9rcio.<\/p>\n<h3>O outro lado<\/h3>\n<p>Por meio de nota, a Febraban defendeu o material publicado e disse que as explica\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser resumidas a ret\u00f3rica. Para eles, \u00e9 \u201cmatem\u00e1tica simples\u201d. \u201cA forma correta de fazer a compara\u00e7\u00e3o entre os cortes nas taxas de juros e da Selic, para avaliar se houve repasse da queda da taxa b\u00e1sica \u00e0s taxas finais, \u00e9, de acordo com a matem\u00e1tica ensinada nas escolas e usada nos cursos de economia, avaliando a varia\u00e7\u00e3o em pontos percentuais, como fazemos no livro. N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de escolha ret\u00f3rica, mas de aritm\u00e9tica\u201d, disse a federa\u00e7\u00e3o ao Metr\u00f3poles.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 cr\u00edtica de que a inadimpl\u00eancia se deve \u00e0 falta de crit\u00e9rio dos bancos na aprova\u00e7\u00e3o de cr\u00e9dito, a Febraban afirmou considerar que essa avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade. \u201cEm todo o mundo, os bancos se deparam com algum n\u00edvel de inadimpl\u00eancia em seus empr\u00e9stimos; e esse inconveniente, no Brasil, \u00e9 agravado pelo fato de que o cr\u00e9dito n\u00e3o pago, no pa\u00eds, est\u00e1 associado a custos bem mais altos que em outros mercados\u201d.<\/p>\n<p>Para a federa\u00e7\u00e3o, \u201cno Brasil, a inadimpl\u00eancia pesa mais que em outros pa\u00edses no custo do cr\u00e9dito. Isso acontece por tr\u00eas motivos: a pr\u00f3pria taxa de inadimpl\u00eancia, que \u00e9 alta; a taxa de recupera\u00e7\u00e3o de garantias, que \u00e9 baixa; e o tratamento regulat\u00f3rio e tribut\u00e1rio dado pelo governo \u00e0s provis\u00f5es feitas para cobrir a inadimpl\u00eancia, que \u00e9 muito oneroso\u201d, disse.<\/p>\n<p><strong>Fonte: Metropoles<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) considera \u201cenganosa\u201d a campanha Papo Reto, veiculada pela Federa\u00e7\u00e3o Brasileira de Bancos (Febraban). 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