{"id":7501,"date":"2019-09-09T18:44:32","date_gmt":"2019-09-09T21:44:32","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/tecnologia-trabalho-e-exploracao-economica\/"},"modified":"2019-09-09T18:44:32","modified_gmt":"2019-09-09T21:44:32","slug":"tecnologia-trabalho-e-exploracao-economica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/tecnologia-trabalho-e-exploracao-economica\/","title":{"rendered":"Tecnologia, trabalho e explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica"},"content":{"rendered":"<p>Neste in\u00edcio do s\u00e9culo 21, o salto produzido pelas Tecnologias de Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o (TIC\u2019s) veio acompanhado por novos modelos de neg\u00f3cios que desorganizaram o padr\u00e3o regulat\u00f3rio da competi\u00e7\u00e3o intercapitalista e intramundo do trabalho. Pela perspectiva te\u00f3rica denominada por economia sob demanda (<em>GIG economy<\/em>)<em><sup> <a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/blogs\/blog-na-rede\/2019\/09\/tecnologia-trabalho-e-exploracao-economica\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/sup><\/em> fundamentou-se a estrutura de funcionamento desregulada de neg\u00f3cios, cujos empreendimentos operam no universo do trabalho dos servi\u00e7os ditos aut\u00f4nomos e pontuais, que isentos de qualquer v\u00ednculo empregat\u00edcio desarticulam a sociedade salarial.<\/p>\n<p>Inicialmente a economia GIG foi tratada como forma de trabalho do futuro, pois se trataria de oportunidade para complementa\u00e7\u00e3o da renda, experimenta\u00e7\u00e3o descompromissada de labor e op\u00e7\u00e3o de atividade avulsa (\u201cbico\u201d), que sem ser profiss\u00e3o, nada a ser regulada. Todavia, com todo o avan\u00e7o do processo de digitaliza\u00e7\u00e3o e da automa\u00e7\u00e3o dos postos de trabalho, a economia GIG se generalizou, tornando o ganha p\u00e3o de parcelas crescentes de trabalhadores.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, por exemplo, mais da metade dos ocupados fazem algum tipo de \u201cbico\u201d, muitos deles associados ao modelo de neg\u00f3cios desregulados das TIC\u2019s. Ap\u00f3s a sua recorrente glorifica\u00e7\u00e3o como trabalho moderno, a economia GIG passou a ser identificada \u00e0 generaliza\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria,<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/trabalho\/2019\/02\/nao-existe-empreendedorismo-mas-gestao-da-sobrevivencia-diz-pesquisadora\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"> alternativo ao emprego com v\u00ednculos de prote\u00e7\u00e3o e promotor das condi\u00e7\u00f5es degradadas de vida<\/a>.<\/p>\n<p>Diante dos lucros extraordinariamente acumulados pela pr\u00e1tica dos modelos de neg\u00f3cios desregulados, o uso recorrente das TIC\u2019s se transformou num dos ramos da <a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/trabalho\/2019\/04\/novo-indicador-do-dieese-mostra-estado-critico-do-trabalho-no-pais\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">economia de explora\u00e7\u00e3o<\/a> a exigir algum tipo de regula\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Nesse sentido que poderes legislativo e judici\u00e1rio de pa\u00edses capitalistas avan\u00e7ados come\u00e7aram a ensaiar formas de interven\u00e7\u00e3o pelas quais o regramento do funcionamento da economia GIG passaria a existir.<\/p>\n<p>Na Alemanha, por exemplo, o modelo de neg\u00f3cios do Facebook da coleta gratuita de informa\u00e7\u00f5es por redes sociais e a monetiza\u00e7\u00e3o nos formatos tanto comercial dos an\u00fancios em plataformas como eleitoral do direcionamento da propaganda pol\u00edtica foi questionado pelo \u00f3rg\u00e3o nacional de regula\u00e7\u00e3o antitruste (Bundeskartellamt). Com isso, os procedimentos da coleta de dados e de sua transforma\u00e7\u00e3o em servi\u00e7os monetizados por terceiros praticados pelo Facebook (WhatsApp e Instagram) e outros propriet\u00e1rios (Spotify, Netflix etc.) devem se direcionar aos modelos de neg\u00f3cios regulados, como qualquer outro.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, justamente no estado da Calif\u00f3rnia onde reside o principal centro tecnol\u00f3gico do mundo (Vale do Sil\u00edcio) que difundiu o salto das TIC, aconteceu importante novidade regulat\u00f3ria estabelecida pelo parlamento que altera o modelo de neg\u00f3cios da economia GIG. Pela regula\u00e7\u00e3o proposta, as ocupa\u00e7\u00f5es de prestadores dos servi\u00e7os em plataformas digitais sob demanda dos aplicativos s\u00e3o incorporadas ao enquadramento regulat\u00f3rio da sociedade salarial, pois geradoras de v\u00ednculos empregat\u00edcios e demandantes de direitos sociais e trabalhistas.<\/p>\n<p>Para tanto, o crit\u00e9rio adotado para definir se a ocupa\u00e7\u00e3o exercida \u00e9 de natureza aut\u00f4noma ou subordinada, dependente do v\u00ednculo de emprego, deve contemplar a compreens\u00e3o sobre o meio final do servi\u00e7o de quem o contratou e a quem seria a responsabilidade da qualidade do trabalho realizado. Isso porque a difus\u00e3o dos modelos desregulados de neg\u00f3cios tanto do Facebook, Netflix, Spotify como da Uber, Cabify, 99, Lyft, Postmates, Amazon, Airbnb, Blablacar e outros, por exemplo, tendem a combinar a economia tecnologicamente avan\u00e7ada com o aprofundamento da explora\u00e7\u00e3o do trabalho precarizado.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio dos pa\u00edses de capitalismo avan\u00e7ado, o Brasil passa por reformas governamentais que destroem os direitos sociais e trabalhistas. Assim, ao inv\u00e9s de proteger trabalhadores da vira\u00e7\u00e3o pela sobreviv\u00eancia, incorporando-os ao padr\u00e3o de regula\u00e7\u00e3o p\u00fablica existente, passa a destru\u00ed-lo, rebaixando ainda mais o padr\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/trabalho\/2019\/09\/ibge-sem-carteira-assinada-informalidade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">emprego formal ao n\u00edvel do praticado pela informalidade<\/a>, o que eleva generalizadamente o grau da explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<h6><em><a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/blogs\/blog-na-rede\/2019\/09\/tecnologia-trabalho-e-exploracao-economica\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup><strong>[1]<\/strong><\/sup><\/a> Economia GIC se refere aos trabalhadores que sem emprego fixo, praticam diversas atividades na forma de \u201cbicos\u201d para ganhar a vida, conforme vocabul\u00e1rio tradicional dos m\u00fasicos com a experi\u00eancia do exerc\u00edcio de diversas apresenta\u00e7\u00f5es em distintos lugares para sobreviver.<\/em><\/h6>\n<p>Marcio Pochmann \u00e9 professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas.<\/p>\n<p><strong>Fonte: Rede Brasil Atual<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste in\u00edcio do s\u00e9culo 21, o salto produzido pelas Tecnologias de Informa\u00e7\u00e3o e Comunica\u00e7\u00e3o (TIC\u2019s) veio acompanhado por novos modelos de neg\u00f3cios que desorganizaram o padr\u00e3o regulat\u00f3rio da competi\u00e7\u00e3o intercapitalista e intramundo do trabalho. 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