{"id":7406,"date":"2019-08-21T18:44:56","date_gmt":"2019-08-21T21:44:56","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/senador-chileno-alejandro-guillier-os-desafios-do-campo-progressista-em-um-mundo-uberizado\/"},"modified":"2019-08-21T18:44:56","modified_gmt":"2019-08-21T21:44:56","slug":"senador-chileno-alejandro-guillier-os-desafios-do-campo-progressista-em-um-mundo-uberizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/senador-chileno-alejandro-guillier-os-desafios-do-campo-progressista-em-um-mundo-uberizado\/","title":{"rendered":"Senador chileno Alejandro Guillier: os desafios do campo progressista em um mundo \u2018uberizado\u2019"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEu digo que n\u00f3s perdemos uma elei\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, n\u00e3o h\u00e1 um fascista no governo, Pi\u00f1era \u00e9 um ex-democrata crist\u00e3o, um homem de ideias liberais, que tende a um certo populismo pol\u00edtico. Governa com base nas pesquisas, sem olhar para o longo prazo, mas respeitoso com as regras democr\u00e1ticas, \u00e9 algu\u00e9m com quem se pode conversar.\u201d \u00c9 assim que o senador chileno Alejandro Guillier define o atual mandat\u00e1rio do pa\u00eds, que exerce o mandato pela segunda vez e que derrotou o parlamentar na elei\u00e7\u00e3o presidencial disputada em 2017.<\/p>\n<p>Soci\u00f3logo e jornalista, ele foi o respons\u00e1vel por representar os sete partidos da coaliz\u00e3o de centro-esquerda Nova Maioria, que contava com a ent\u00e3o presidenta Michelle Bachelet. Era a agremia\u00e7\u00e3o formada ap\u00f3s o desmanche da Concertaci\u00f3n, que havia governado o pa\u00eds por 20 anos ap\u00f3s o fim da ditadura do general Augusto Pinochet. O terceiro homem mais rico do pa\u00eds voltou ao poder superando o rival por 54,6% a 45,4%.<\/p>\n<p>Ainda que fa\u00e7a quest\u00e3o de demarcar as diferen\u00e7as com Pi\u00f1era, tamb\u00e9m por estar no Brasil, que vive a experi\u00eancia de ter um governo de extrema-direita, Guillier situa seu ex-advers\u00e1rio na corrida presidencial em um campo distinto, mas dentro do jogo democr\u00e1tico. \u201cA direita chilena \u00e9 republicana. Conservadora, mas \u00e9 republicana\u201d, pontua.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida quando esteve no Brasil para participar da\u00a0<a href=\"https:\/\/spbancarios.com.br\/tag\/21a-conferencia-nacional-dos-bancarios\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">21\u00aa Confer\u00eancia Nacional dos Banc\u00e1rios<\/a>, realizada no in\u00edcio de agosto em S\u00e3o Paulo, ele fala a respeito dos desafios impostos ao campo progressista por conta da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, fala sobre a Justi\u00e7a de transi\u00e7\u00e3o no pa\u00eds e tamb\u00e9m sobre o modelo previdenci\u00e1rio chileno, implantado na ditadura de Pinochet e que hoje \u00e9 questionado mesmo pelos conservadores. \u201cO problema no Chile \u00e9 que as aposentadorias s\u00e3o de fome. Quando algu\u00e9m que trabalhou 35 e 40 anos, ao se aposentar, tem uma aposentadoria que n\u00e3o chega nem a ser de um sal\u00e1rio m\u00ednimo, isso quer dizer que o sistema n\u00e3o funciona.\u201d<\/p>\n<p><strong>Que avalia\u00e7\u00e3o voc\u00ea faz do governo de Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era?<\/strong><\/p>\n<p>Antes de mais nada, deixe-me saudar os trabalhadores e as trabalhadoras do Brasil, principalmente dos setores financeiro, banc\u00e1rio e metal\u00fargico, que nos acompanham com muito interesse.<\/p>\n<p>Eu digo que n\u00f3s perdemos uma elei\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, n\u00e3o h\u00e1 um fascista no governo, Pi\u00f1era \u00e9 um ex-democrata crist\u00e3o, um homem de ideias liberais, que tende a um certo populismo pol\u00edtico. Governa com base nas pesquisas, sem olhar para o longo prazo, mas respeitoso com as regras democr\u00e1ticas, \u00e9 algu\u00e9m com quem se pode conversar, esse \u00e9 o nosso cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos em uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dram\u00e1tica, mas sim num grande desafio de renova\u00e7\u00e3o para o setor progressista, para saber quais as respostas que temos para o s\u00e9culo XXI. Isso porque a globaliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 dada, porque estamos vivendo a robotiza\u00e7\u00e3o, a digitaliza\u00e7\u00e3o e a automa\u00e7\u00e3o; estamos perdendo empregos, principalmente nos setores de ponta, por exemplo, nos servi\u00e7os, na minera\u00e7\u00e3o e nos setores de energia. Precisamos encarar o emprego como um dos nossos grandes desafios hoje em dia.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea classificaria o desemprego ent\u00e3o como o principal desafio do governo chileno?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, o Chile de alguma maneira tem uma matriz produtiva prim\u00e1rio-exportadora, que depende muito de poucos produtos. A diferen\u00e7a do Brasil \u00e9 que ele tem um mercado interno enorme, o Chile quase n\u00e3o tem mercado interno, \u00e9 um pa\u00eds muito pequeno, s\u00f3 S\u00e3o Paulo \u00e9 maior do que o Chile. O motor da nossa economia \u00e9 o setor exportador, mas temos poucos produtos, por isso precisamos fazer uma diversifica\u00e7\u00e3o produtiva.<\/p>\n<p>Mas o que precisamos mesmo fazer \u00e9 desenvolver uma economia mais sustent\u00e1vel. Por conta dos desafios dados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, temos que implementar o Acordo de Paris, e isso significa uma minera\u00e7\u00e3o muito mais limpa do que o tradicional e substituir as fontes de energia. Estamos vendo as energias renov\u00e1veis, particularmente solar e e\u00f3lica, mas com um grande potencial tamb\u00e9m de todas as novas tecnologias, como a biot\u00e9rmica e a do mar. Al\u00e9m disso, precisamos criar um sistema educacional que prepare os jovens para os empregos do futuro.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m teremos um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o. O que fazemos com os trabalhadores que est\u00e3o sendo dispensados na minera\u00e7\u00e3o, no com\u00e9rcio varejista<strong>,<\/strong>\u00a0nos servi\u00e7os, que est\u00e3o perdendo o emprego por causa da automatiza\u00e7\u00e3o? Estes s\u00e3o nossos desafios, mas isso pressup\u00f5e, entendo eu, uma nova matriz produtiva. \u00c9 preciso diversificar a economia e fazer uma grande reforma da educa\u00e7\u00e3o para nos prepararmos e tamb\u00e9m reciclar os que est\u00e3o hoje no mercado de trabalho.<\/p>\n<p><strong>A educa\u00e7\u00e3o tem sido um tema constante no Chile.<\/strong><\/p>\n<p>Sim, todos os governos prop\u00f5em uma reforma da educa\u00e7\u00e3o e eu tamb\u00e9m fiz uma proposta, mas, no geral, acredito que o nosso erro tem sido ficar nas quest\u00f5es do ambiente escolar, ou seja, assegurar cobertura, melhorar a qualidade dos estabelecimentos, a infraestrutura. No entanto, temos sido muito burocr\u00e1ticos e n\u00e3o olhamos para o papel do professor. Agora, estamos no momento de uma grande revolu\u00e7\u00e3o nas aulas, precisamos empoderar o professor. Dar a ele liberdade, criatividade com planos, programas, m\u00e9todos de aprendizagem mais ativos, vincular muito mais as crian\u00e7as, jovens, meninos e meninas, ao mundo real, com um m\u00e9todo de aprendizado centrado em desenvolver capacidades intelectuais e tamb\u00e9m de aprender fazendo. S\u00e3o conceitos novos porque a escola do s\u00e9culo XX n\u00e3o nos leva ao s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p><strong>Aqui no Brasil, por exemplo, estamos indo no sentido contr\u00e1rio, o governo age para retirar a autonomia do professor. No Chile, existe um outro tipo de entendimento.<\/strong><\/p>\n<p>No Chile, e isso \u00e9 o que n\u00f3s dizemos, a tend\u00eancia dos governos \u00e9 de querer controlar a educa\u00e7\u00e3o e os professores t\u00eam pouco espa\u00e7o para sua criatividade, s\u00e3o impostas inclusive as leituras, os livros que devem ser entregues aos jovens. Existem circunst\u00e2ncias em que um professor do extremo norte enfrenta desafios muito diferentes dos do extremo sul, ou, outro exemplo, os das cidades grandes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s cidades pequenas.<\/p>\n<p>O Chile \u00e9 um pa\u00eds com muita diversidade, um pa\u00eds comprido e estreito e ao mesmo tempo muito variado nessa sua maravilhosa realidade geogr\u00e1fica, e por isso mesmo n\u00e3o pode ter a mesma resposta para todos. Por isso \u00e9 preciso liberar as escolas e os professores para que desenvolvam sua criatividade, que n\u00e3o \u00e9 muito permitida.<\/p>\n<p><strong>Senador, aqui no Brasil estamos discutindo a chamada reforma da Previd\u00eancia, aprovada na C\u00e2mara dos Deputados. Muito se tem falado aqui, do modelo previdenci\u00e1rio do Chile. O senhor pode explicar como funciona e o que tem sido discutido a esse respeito l\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p>Eu entendo (o modelo previdenci\u00e1rio chileno) como um mau exemplo. No Chile, estamos todos convivendo com uma crise no sistema previdenci\u00e1rio. S\u00f3 um dado aos brasileiros e brasileiras: hoje em dia, a maior parte dos chilenos que est\u00e1 se aposentando n\u00e3o chega a ganhar um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Foi prometida uma aposentadoria, quando se criou o sistema no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1980, que ir\u00edamos ter uma taxa de retorno da ordem de 70% a 80% dos \u00faltimos 10 sal\u00e1rios e, na verdade, n\u00e3o chega a 30%, est\u00e1 entre 20% e 30%. E gra\u00e7as a Michelle Bachelet no seu \u00faltimo governo e a todo um conceito chamado pilar solid\u00e1rio, que \u00e9 um aporte do Estado, estamos conseguindo que se aproximem aos 35%, 40% da sua \u00faltima remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto, no Chile, se aposentar \u00e9 voltar \u00e0 pobreza e todos reconhecem isso. A diferen\u00e7a \u00e9 que a direita diz que a crise \u00e9 de expectativa, que as pessoas aspiram a muito mais e est\u00e3o vivendo muito mais. O problema no Chile \u00e9 que as aposentadorias s\u00e3o de fome. Quando algu\u00e9m que trabalhou 35 e 40 anos, ao se aposentar, tem uma aposentadoria que n\u00e3o chega nem a ser de um sal\u00e1rio m\u00ednimo, isso quer dizer que o sistema n\u00e3o funciona.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio presidente Pi\u00f1era apresentou uma proposta de reforma que temos no Congresso, a presidenta Bachelet deixou tamb\u00e9m\u2026 \u00a0Mas o principal problema \u00e9 que a contribui\u00e7\u00e3o do trabalhador n\u00e3o \u00e9 um sistema de seguro, \u00e9 uma poupan\u00e7a individual. \u00c9 como ter uma conta no banco onde voc\u00ea deposita todo m\u00eas um dinheiro. Quando n\u00e3o trabalha, est\u00e1 desempregado, n\u00e3o coloca nada, e portanto, quando chega o momento de se aposentar, diz: quanto juntei? Porque n\u00e3o tem a contribui\u00e7\u00e3o do empregador, n\u00e3o tem a contribui\u00e7\u00e3o do Estado, salvo exce\u00e7\u00e3o no per\u00edodo da presidenta Bachelet. E, ademais, como a expectativa de vida \u00e9 maior, voc\u00ea se aposenta, digamos, por exemplo, com 40% de seus \u00faltimos sal\u00e1rios, mas calculou sua vida at\u00e9 os 82 anos e portanto contratou um sistema de aposentadoria que d\u00e1 cobertura at\u00e9 os 82. Se voc\u00ea vive at\u00e9 os 83 anos, fica sem aposentadoria nesse per\u00edodo. Ou, por exemplo, no sistema previdenci\u00e1rio chileno, existe uma modalidade em que se o trabalhador se aposenta no ano em que morre, a vi\u00fava recebe 60% do que ele recebia e os 40% o sistema embolsa. Ent\u00e3o, est\u00e3o nos copiando no roubo. \u00c9 uma profunda frustra\u00e7\u00e3o porque a explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 na origem.<\/p>\n<p>No Chile, por que se inventou esse sistema AFP? N\u00e3o foi para dar aposentadorias. Est\u00e1vamos quebrados no come\u00e7o dos anos 80, a famosa crise que todos sabemos, e, portanto, o Chile literalmente n\u00e3o tinha um mercado financeiro, obrigaram a todos n\u00f3s chilenos a poupar e canalizar essa poupan\u00e7a ao sistema financeiro para poder mover o aparato produtivo e dar cr\u00e9dito. Portanto, o objetivo verdadeiro era gerar um mercado de capitais, n\u00e3o era gerar aposentadorias. Depois de 30 anos fomos ver o que fizemos. E ficou no ar e ningu\u00e9m fez nada, e chegou o momento em que as pessoas come\u00e7aram a se aposentar e descobriu-se que a aposentadoria era uma l\u00e1stima. Na verdade, um roubo!<\/p>\n<p><strong>Ou seja, na origem do modelo de Previd\u00eancia do Chile n\u00e3o se pensou na verdade na aposentadoria do trabalhador, era uma forma de impulsionar o sistema financeiro?<\/strong><\/p>\n<p>Claro, para estimular o mercado financeiro, os empres\u00e1rios mesmo n\u00e3o estavam quebrados, os bancos quebraram no Chile e portanto era preciso reconstruir a economia chilena desde baixo e se fez isso \u00e0s custas do trabalhadores chilenos. Al\u00e9m disso, muitos bancos tiveram que contrair d\u00edvidas para se reerguer e muitos deles nunca devolveram esse dinheiro. Esse \u00e9 um dos mist\u00e9rios da transi\u00e7\u00e3o chilena, isso no per\u00edodo dos militares, na ditadura do Pinochet, onde n\u00e3o havia jogo democr\u00e1tico e isso n\u00e3o p\u00f4de ser debatido, obrigavam a passar do antigo sistema previdenci\u00e1rio que era com contribui\u00e7\u00e3o do empregador, do Estado e do trabalhador. Ent\u00e3o, voc\u00ea tinha um montante de capitaliza\u00e7\u00e3o mensal da ordem de 17% a 20% de sua remunera\u00e7\u00e3o. \u00c9 quando te dizem \u201cagora n\u00e3o, s\u00f3 voc\u00ea vai contribuir\u201d. O Estado n\u00e3o, o empres\u00e1rio n\u00e3o, s\u00f3 voc\u00ea, com 10% voc\u00ea vai ganhar melhores aposentadorias, mas isso foi um grande engano. Olhem as cifras, olhem a hist\u00f3ria. N\u00e3o precisam acreditar em mim. Olhem as estat\u00edsticas se querem imitar e evitem enganar os brasileiros. Seria esse um engano.<\/p>\n<p><strong>A equipe econ\u00f4mica do governo Bolsonaro tentou implantar esse modelo, a capitaliza\u00e7\u00e3o, aqui no Brasil, esse item acabou sendo retirado do texto mas ainda h\u00e1 uma possibilidade de voltar no futuro. O senhor n\u00e3o recomenda esse sistema para nenhum pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>Para nenhum pa\u00eds, porque o que foi feito no Chile gerou uma crise. Estamos discutindo como moderniz\u00e1-lo. O pr\u00f3prio presidente Pi\u00f1era tinha um projeto no Congresso de aumentar a cotiza\u00e7\u00e3o, para incluir a contribui\u00e7\u00e3o dos empres\u00e1rios, do empregador, por exemplo, que \u00e9 consenso, da ordem de 4% a 5%, esses s\u00e3o os percentuais que estamos discutindo para aumentar o montante. Mas o problema no Chile \u00e9 que o emprego \u00e9 inst\u00e1vel. E crescentemente inst\u00e1vel. Esse emprego com contrato, de jornada completa numa empresa, onde voc\u00ea entrava e se trabalhasse bem tinha possibilidade de trabalhar por 20, 30 anos, inclusive fazer sua vida na empresa, j\u00e1 n\u00e3o existe mais. O trabalho no Chile hoje \u00e9 prec\u00e1rio. As empresas terceirizaram muitas fun\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mais um trabalhador, \u00e9 um \u201cempreendedor\u201d. N\u00f3s vamos comprar seu servi\u00e7o, mas voc\u00ea tem que constituir uma pequena empresa, a not\u00edcia \u00e9 que n\u00e3o v\u00e3o pagar aposentadoria, seguro social, voc\u00ea \u00e9 que tem que pagar isso. E o que v\u00e3o pagar \u00e9 menos do que o seu sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 precarizar o trabalho. \u00c9 o que alguns chamam no Chile de \u201cuberiza\u00e7\u00e3o\u201d da economia. \u00c9 uma plataforma que administra informa\u00e7\u00e3o e que o conecta a um cliente que pede um servi\u00e7o, s\u00f3 fazem \u00e9 isso. Mas quem disp\u00f5e do ve\u00edculo? Um particular. Quem paga a aposentadoria? Se bate, tem uma colis\u00e3o, um acidente, qual o seguro? N\u00e3o tem. S\u00f3 se o particular tiver. E essa plataforma n\u00e3o paga imposto!<\/p>\n<p>E esse \u00e9 o futuro? Quem vai pagar o imposto? Quem vai pagar impostos para fazer obras p\u00fablicas, construir estradas, ruas, pontes, aeroportos, hospitais, escolas, se optamos por um sistema que n\u00e3o paga impostos e que n\u00e3o paga direitos sociais? O sistema previdenci\u00e1rio fica cada vez mais prec\u00e1rio porque n\u00e3o h\u00e1 uma cotiza\u00e7\u00e3o regular. Se o trabalho \u00e9 vulner\u00e1vel e prec\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 contribui\u00e7\u00e3o mensal de ningu\u00e9m. O que o Pi\u00f1era est\u00e1 fazendo \u00e9 para um pequeno segmento de mercado. E para os partid\u00e1rios de Bolsonaro, que admiram os militares chilenos, quando se fez a reforma previdenci\u00e1ria no Chile, Pinochet, disse: \u201cFa\u00e7am, mas n\u00e3o para os militares!\u201d. Os militares t\u00eam outro sistema previdenci\u00e1rio. At\u00e9 os dias de hoje n\u00e3o se mexe nas aposentadorias dos militares chilenos, que t\u00eam altos custos porque a vida militar \u00e9 muito curta, mas a vida deles \u00e9 longa, pois s\u00e3o pessoas saud\u00e1veis. Com 45 ou no m\u00e1ximo 50 anos j\u00e1 est\u00e3o se aposentando e vivem 80, 85, 90 anos.<\/p>\n<p><strong>Aqui no Brasil, tamb\u00e9m a proposta original de reforma da Previd\u00eancia excluiu a previd\u00eancia dos militares.<\/strong><\/p>\n<p>Claro, \u00e9 que os militares t\u00eam as armas, e com as armas n\u00e3o se negocia. N\u00e3o \u00e9 aconselh\u00e1vel. Mas isso s\u00f3 mostra que n\u00e3o \u00e9 bom o sistema que est\u00e1 sendo proposto, porque se fosse t\u00e3o bom todos iriam querer estar ali. E se querem ser exce\u00e7\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o querem estar ali.<\/p>\n<p><strong>Senador, falando da quest\u00e3o das For\u00e7as Armadas, o Chile teve uma transi\u00e7\u00e3o que muitos acham que foi t\u00edmida em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura que existiu no pa\u00eds, embora tenha havido at\u00e9 uma transi\u00e7\u00e3o mais rigorosa do que aconteceu aqui no Brasil, onde os mecanismos de Justi\u00e7a foram muito mais brandos, alguns n\u00e3o existem e outros est\u00e3o hoje sob ataque. Gostaria que o senhor comentasse como foi a passagem para a democracia no Chile e tamb\u00e9m se \u00e9 poss\u00edvel fazer algum tipo de compara\u00e7\u00e3o com pa\u00edses vizinhos.<\/strong><\/p>\n<p>No Chile a transi\u00e7\u00e3o foi com os militares e n\u00e3o contra os militares.\u00a0Pinochet foi derrotado em um plebiscito, em uma consulta cidad\u00e3, que na \u00faltima hora tentou n\u00e3o reconhecer, mas os outros militares disseram \u201cn\u00e3o, n\u00e3o queremos instabilidade\u201d, e teve que cumprir a Constitui\u00e7\u00e3o. Portanto, ele foi derrotado em uma elei\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o politicamente.<\/p>\n<p>Foi iniciada uma transi\u00e7\u00e3o com os militares porque era fundamental manter o modelo econ\u00f4mico imposto por eles, mas com alguns acordos pol\u00edticos para poder direcionar uma parte dos investimentos nacionais ao combate da extrema pobreza gerada no regime militar, mas que tamb\u00e9m \u00e9 hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Portanto, tivemos \u00eaxito em erradicar a extrema pobreza. Mas quando o pobre deixa de ser pobre e vai se transformando em uma classe m\u00e9dia emergente, os mecanismos falham. N\u00e3o o acompanham. E essa a frustra\u00e7\u00e3o de quem nos acompanhou. Porque eram pessoas que votavam conosco, que sa\u00edram da pobreza pelas pol\u00edticas progressistas dos governos da Concertac\u00edon, mas chega um momento em que sentem que (as pol\u00edticas p\u00fablicas) j\u00e1 n\u00e3o as beneficia e ficam em uma situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. \u00c9 uma classe m\u00e9dia muito vulner\u00e1vel e foram eles que deixaram de votar (N.E. No Chile, o voto \u00e9 facultativo). N\u00e3o votam na direita, mas n\u00e3o v\u00e3o votar. Ent\u00e3o no Chile votaram 40%, 45% dos chilenos nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais e n\u00e3o mais do que 30%, 32% nas elei\u00e7\u00f5es locais.<\/p>\n<p>H\u00e1 um desencanto pelo modelo porque n\u00e3o acompanhou a classe m\u00e9dia e essa \u00e9 uma das debilidades que o pa\u00eds tem nesse momento e que temos que corrigir. E que tem que estar nos discursos progressistas. Por exemplo, os sindicatos, no Chile, protegem o trabalhador sindicalizado, mas o que acontece com esse trabalhador que perdeu o emprego? Que teve que se tornar, entre aspas, um empreendedor, que \u00e9 um trabalhador prec\u00e1rio. N\u00e3o est\u00e1 contemplado no discurso. Na verdade, as mulheres querem entrar com muita for\u00e7a no mercado de trabalho chileno, com muito atraso em rela\u00e7\u00e3o ao resto da Am\u00e9rica Latina, mas \u00e9 por conta pr\u00f3pria, tamb\u00e9m entram em um mundo de explora\u00e7\u00e3o, de instabilidade, de incerteza. Tudo que os empres\u00e1rios reclamam como condi\u00e7\u00e3o para se desenvolver, as classes m\u00e9dias n\u00e3o t\u00eam. Mas que legisla\u00e7\u00e3o n\u00f3s temos, como os protegemos com pol\u00edticas p\u00fablicas? Isso \u00e9 o que est\u00e3o exigindo de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Os partidos pol\u00edticos progressistas, assim como os movimentos sindicais, que defendem os interesses dos trabalhadores, t\u00eam que entender que o conceito de trabalhador \u00e9 muito mais amplo. Tem que incluir aqueles a quem \u00e9 dito que \u201cn\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 trabalhador, \u00e9 um empreendedor\u201d, essa pessoa acredita nessa hist\u00f3ria e sente que \u00e9 um empres\u00e1rio. Mas n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um empres\u00e1rio. Porque depende de um s\u00f3 provedor ou de um s\u00f3 cliente, e que al\u00e9m disso o maltrata, paga quando quer, fatura em 3, 4, 5 e at\u00e9 6 meses no Chile. Ent\u00e3o \u00e9 um explorado de outra maneira.<\/p>\n<p><strong>E quando o senhor fala da forma\u00e7\u00e3o de uma classe m\u00e9dia emergente por conta das pol\u00edticas dos governos da Concertaci\u00f3n ,aqui no Brasil n\u00f3s tivemos tamb\u00e9m um processo semelhante nos governos do PT. De certa forma a gente pode dizer que foram em parte v\u00edtimas do pr\u00f3prio \u00eaxito?<\/strong><\/p>\n<p>Bom, efetivamente, porque se n\u00e3o se acompanha com pol\u00edticas p\u00fablicas, essa classe m\u00e9dia, no momento em que faz a compara\u00e7\u00e3o, percebe que melhora mas perde mais do que ganha. Seu esfor\u00e7o pessoal, que vai significar mais dinheiro eventualmente, vai faz\u00ea-la perder, curiosamente, o benef\u00edcio que tinha antes.\u00a0Esses s\u00e3o os gargalos \u00a0que ocorrem no Chile \u00a0e provavelmente tamb\u00e9m no Brasil.<\/p>\n<p>A classe m\u00e9dia \u00e9 a coluna vertebral e \u00e9 a\u00ed que temos que avan\u00e7ar. N\u00e3o \u00e9 mais a extrema pobreza. H\u00e1 ainda uma pobreza espec\u00edfica, dura, e \u00e9 preciso atend\u00ea-la, mas o grande tema \u00e9 como proteger a classe m\u00e9dia. E hoje em dia, com a automatiza\u00e7\u00e3o, a robotiza\u00e7\u00e3o, a terceiriza\u00e7\u00e3o do emprego e o emprego prec\u00e1rio, a classe m\u00e9dia est\u00e1 uma situa\u00e7\u00e3o de instabilidade profunda, de enorme incerteza sobre seu futuro. E tudo indica que isso s\u00f3 vai se agravar. No Chile, todos os dias pessoas s\u00e3o demitidas no com\u00e9rcio, no sistema financeiro, nos servi\u00e7os em geral. A minera\u00e7\u00e3o gera menos emprego e se perdem milhares de trabalhadores porque s\u00e3o substitu\u00eddos por rob\u00f4s. E os rob\u00f4s n\u00e3o pagam impostos, ou seja, al\u00e9m disso n\u00e3o h\u00e1 recursos para melhorar a qualidade da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E o Chile \u00e9 um pa\u00eds autorit\u00e1rio, centralizado, a Constitui\u00e7\u00e3o de 1980 ainda est\u00e1 vigente, o Congresso tem\u00a0 muito pouco poder. A diferen\u00e7a para o Brasil \u00e9 que no nosso Congresso n\u00e3o se pode fazer altera\u00e7\u00f5es, por exemplo, em mat\u00e9ria de uma reforma tribut\u00e1ria que mude os mecanismos, voc\u00ea s\u00f3 pode dizer sim ou n\u00e3o \u00e0quilo que o presidente prop\u00f5e. Portanto, a negocia\u00e7\u00e3o \u00e9 paralela ao que se passa no Congresso, n\u00e3o \u00e9 no Congresso, a institui\u00e7\u00e3o formal, porque eu poderia dizer que estou dispon\u00edvel, mas proponho mudar o que prop\u00f5e o presidente. N\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o tem poder, tem que dizer sim ou n\u00e3o. Por isso o Congresso chileno \u00e9 fraco, pela institucionalidade autorit\u00e1ria que ficou ligada a essa transi\u00e7\u00e3o com os militares cujo modelo permanece at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p><strong>E esse modelo de transi\u00e7\u00e3o, na sua opini\u00e3o, facilita o surgimento de figuras como a de Jair Bolsonaro?<\/strong><\/p>\n<p>O chileno tem uma tradi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Por exemplo, existe no pa\u00eds uma figura que podemos chamar como um Bolsonaro chileno, o deputado Kast (Jos\u00e9 Antonio Kast Rist), que segue com um discurso muito fascistoide, conservador, que reivindica a ditadura militar. No Chile, morreram crian\u00e7as, morreram adolescentes, havia um cerco para amedrontar as pessoas. Portanto, h\u00e1 muita dor. N\u00e3o entendo matar algu\u00e9m por causa da sua ideia, mas tem gente que sofreu invas\u00e3o de domic\u00edlio, para ele, essa dor \u00e9 uma tarefa inacabada<strong>.\u00a0<\/strong>Al\u00e9m disso, \u00e9 um discurso contr\u00e1rio aos direitos da mulher, da diversidade sexual e de g\u00eanero, aos povos origin\u00e1rios, tudo se resolve com autoritarismo e m\u00e3o dura.<\/p>\n<p>E tudo isso em benef\u00edcio de quem? De novos grupos empresariais, n\u00e3o os tradicionais, mas novos grupos empresariais que est\u00e3o nessa da globaliza\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o gostam dos sindicatos porque s\u00e3o barreiras ao livre jogo dos fatores de produ\u00e7\u00e3o do livre mercado, n\u00e3o acreditam na seguridade social e acreditam que todos devem competir entre si. Com esse discurso ele chega, mas \u00e9 uma elite econ\u00f4mica e social que n\u00e3o tenho visto se transformar em maioria no Chile. A direita chilena \u00e9 republicana. Conservadora, mas \u00e9 republicana.<\/p>\n<p><strong>Kast inclusive esteve no segundo turno aqui no Brasil junto com Jair Bolsonaro, pelo que o senhor fala \u00e9 bastante similar o posicionamento dele em rela\u00e7\u00e3o a determinados temas ao do presidente do Brasil.<\/strong><\/p>\n<p>Alejandro Guillier \u2013 Bolsonaro \u00e9 um personagem como Trump, com ideias muito particulares. \u00c9 perigoso porque \u00e9 imprevis\u00edvel. Provavelmente nunca vai fazer as coisas que fala mas gera temor e incerteza. O problema \u00e9 quem est\u00e1 por tr\u00e1s. O que se percebe em muitos setores chilenos \u00e9 que existe militares no poder e portanto h\u00e1 o temor sobre o que vivemos na Am\u00e9rica Latina com esse regime. H\u00e1 tamb\u00e9m grupos empresariais, n\u00e3o todos os empres\u00e1rios, mas grupos empresariais antidemocr\u00e1ticos de todas as maneiras, provavelmente fan\u00e1ticos religiosos, que se combinam e que geram uma coisa muito contradit\u00f3ria porque \u00e9 estranho que um militar brasileiro tenha aderido a isso porque os militares brasileiros s\u00e3o nacionalistas, sempre foram partid\u00e1rios do desenvolvimento de um Brasil potente, com um projeto de fortalecimento da ind\u00fastria. N\u00e3o sabemos se Bolsonaro tem esse projeto, mas tudo indica que ele quer desmantelar o aparato produtivo onde o Estado joga um jogo muito importante. Portanto, creio que s\u00e3o setores, s\u00e3o grupos que misturam coisas muitos distintas e contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Fonte: Rede Brasil Atual<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu digo que n\u00f3s perdemos uma elei\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, n\u00e3o h\u00e1 um fascista no governo, Pi\u00f1era \u00e9 um ex-democrata crist\u00e3o, um homem de ideias liberais, que tende a um certo populismo pol\u00edtico. 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