{"id":7064,"date":"2019-07-09T17:33:05","date_gmt":"2019-07-09T20:33:05","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/tensao-entre-eua-e-china-suplanta-globalizacao-enquanto-mercosul-se-submete-a-ue\/"},"modified":"2019-07-09T17:33:05","modified_gmt":"2019-07-09T20:33:05","slug":"tensao-entre-eua-e-china-suplanta-globalizacao-enquanto-mercosul-se-submete-a-ue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/tensao-entre-eua-e-china-suplanta-globalizacao-enquanto-mercosul-se-submete-a-ue\/","title":{"rendered":"Tens\u00e3o entre EUA e China suplanta globaliza\u00e7\u00e3o, enquanto Mercosul se submete \u00e0 UE"},"content":{"rendered":"<p>A reuni\u00e3o do G-20 realizada em Osaka na \u00faltima semana de junho comprovou o quanto a era de ouro da globaliza\u00e7\u00e3o chega ao fim diante da emerg\u00eancia da guerra fria econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica entre os Estados Unidos e a China. O acordo entre o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia foi apenas um detalhe que destoou das flagrantes debilidades do atual sistema multilateral mundial por 12 anos da crise global iniciada em 2008, pelo impasse do Brexit e pelos avan\u00e7os da extrema direita na propaga\u00e7\u00e3o do protecionismo e das medidas antiglobaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio desesperador para os defensores da j\u00e1 enfraquecida ordem neoliberal internacional,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/destaques\/2019\/07\/para-centrais-sindicais-acordo-mercosul-ue-pode-ser-golpe-definitivo-contra-a-industria-brasileira\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o Acordo Mercosul-UE<\/a>\u00a0condiciona a inser\u00e7\u00e3o tardia de parte da periferia latino-americana \u00e0 falsa panaceia do livre com\u00e9rcio. Tem 25 anos que o governo dos EUA lan\u00e7ou, em 1994, o Acordo da \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas (Alca), enquanto receita milagrosa para os males impostos \u00e0 regi\u00e3o submetida ao receitu\u00e1rio neoliberal de ades\u00e3o passiva e subordinada \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, os argumentos contr\u00e1rios \u00e0 Alca levaram ao seu abandono pela maioria dos governos latino-americanos a partir de 2005, quando foram estabelecidos novos organismos de coopera\u00e7\u00e3o inter-regional, sem a presen\u00e7a dos EUA. O entendimento de que o livre com\u00e9rcio realizado entre pa\u00edses com enorme disparidade econ\u00f4mica interessa mais \u00e0s economias ricas, por ampliar o mercado dos outros pa\u00edses para seus produtos de maior competitividade e valor agregado, cabe tamb\u00e9m para o Acordo Mercosul-UE que se concretizado tende a ampliar o desemprego com o fechamento de ind\u00fastrias locais e a maior especializa\u00e7\u00e3o prim\u00e1rio-exportadora.<\/p>\n<p>A presente aus\u00eancia de estudos e relat\u00f3rios dispon\u00edveis que permitam avaliar impactos do acordo comercial, bem como o sigilo de crit\u00e9rios em torno da negocia\u00e7\u00e3o, explicitam defici\u00eancias e assimetrias que logo mais dever\u00e3o ser consideradas. De todo o modo, os pa\u00edses do Mercosul n\u00e3o apenas chegam tarde, como se colocam no sentido inverso do cen\u00e1rio mundial.<\/p>\n<p>Isso porque a rela\u00e7\u00e3o simbi\u00f3tica entre a China e EUA estabelecida desde 2001, quando aderiu \u00e0\u00a0<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/destaques\/2019\/06\/bolsonaro-lidera-ranking-fracasso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio<\/a>\u00a0(OMC), possibilitou que os produtos chineses inundassem o mercado interno norte-americano ao passo que as empresas estadunidenses integravam a mesma China em suas cadeias globais de produ\u00e7\u00e3o, aproveitando-se dos baixos custos de produ\u00e7\u00e3o e do acesso a novos mercados no mundo. Ao mesmo tempo, a China conseguiu apoiar parte de sua estrutura produtiva nos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos como dos EUA, reciclando seus excedentes comerciais, mantendo desapreciada a sua moeda e tornando-se cada vez mais ultracompetitiva.<\/p>\n<p>Os EUA, em contrapartida, absorveram os fluxos dos capitais excedentes dos chineses, o que permitiu financiar o crescente endividamento p\u00fablico e das fam\u00edlias com baixas taxas de juros e manter o crescimento econ\u00f4mico interno com d\u00e9ficits no com\u00e9rcio externo. A escalada do modelo de globaliza\u00e7\u00e3o liderado pelos EUA em apoio \u00e0s trocas deficit\u00e1rias com a China, na ordem de 2% do PIB (cerca da metade do d\u00e9ficit comercial estadunidense), \u00e0 financeiriza\u00e7\u00e3o da riqueza e ao deslocamento da produ\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica para a \u00c1sia permeia a tardia rea\u00e7\u00e3o nacional-defensiva de Trump, diante do decl\u00ednio relativo estadunidense melhor percebido desde a crise global de 2008.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/politica\/2018\/09\/globalizacao-desigual-e-avanco-do-capital-ameacam-a-democracia-no-brasil-e-no-mundo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">fim da globaliza\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0encontra-se tensionado pela guerra fria que se abre no campo econ\u00f4mico e tecnol\u00f3gico. O renascimento do nacionalismo econ\u00f4mico dos EUA transcorre em simult\u00e2neo \u00e0 rea\u00e7\u00e3o equivalente que marcou o final da d\u00e9cada de 1950, quando a URSS colocou em \u00f3rbita o\u00a0<em>Spoutnik<\/em>, indicando o atraso tecnol\u00f3gico estadunidense.<\/p>\n<p>A crescente superioridade chinesa n\u00e3o se localiza apenas na capacidade de produzir e comercializar em grande escala no mundo, mas tamb\u00e9m na sua performance em articular novo itiner\u00e1rio de expans\u00e3o econ\u00f4mica por meio do plano de investimento Rotas de Seda. Ademais, conforme se encontra em curso na programa\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Made in China 2025<\/em>, o Estado chin\u00eas est\u00e1 a servi\u00e7o da soberania nos dom\u00ednios das tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o, rob\u00f3tica e intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o disso, a China busca a sua pr\u00f3pria autonomia, reduzindo desde os anos 2000 o grau de depend\u00eancia das importa\u00e7\u00f5es. No ano de 2017, por exemplo, o total das importa\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao PIB foi de 18%, enquanto em 2006 era de 28% do PIB e de 11% nos anos de 1990. A guerra comercial aberta pelos EUA e a proibi\u00e7\u00e3o no uso das tecnologias da Huawei estabelecem novo marco no sistema multilateral de constrangimentos \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o e de nova guerra fria econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Parece n\u00e3o se tratar de mais uma exacerba\u00e7\u00e3o de rivalidades entre duas superpot\u00eancias pelo exerc\u00edcio da hegemonia mundial. Ascende cada vez mais a possibilidade reafirmada por Xi Jinping, enquanto objetivo oficial de estabelecer o triunfo do socialismo \u00e0 moda chinesa sobre o capitalismo em escala mundial.<\/p>\n<p>*<em>Marcio Pochmann \u00e9 professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas, S\u00e3o Paulo, Brasil.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>Fonte: Rede Brasil Atual<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A reuni\u00e3o do G-20 realizada em Osaka na \u00faltima semana de junho comprovou o quanto a era de ouro da globaliza\u00e7\u00e3o chega ao fim diante da emerg\u00eancia da guerra fria econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica entre os Estados Unidos e a China. 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