{"id":6998,"date":"2019-07-01T20:31:14","date_gmt":"2019-07-01T23:31:14","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/sem-projeto-brasil-volta-a-esperar-milagres-por-marcio-pochmann\/"},"modified":"2019-07-01T20:31:14","modified_gmt":"2019-07-01T23:31:14","slug":"sem-projeto-brasil-volta-a-esperar-milagres-por-marcio-pochmann","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/sem-projeto-brasil-volta-a-esperar-milagres-por-marcio-pochmann\/","title":{"rendered":"Sem projeto, Brasil volta a esperar \u2018milagres\u2019. Por Marcio Pochmann"},"content":{"rendered":"<p>O golpe de 2016 colocou fim \u00e0 perspectiva de projeto da na\u00e7\u00e3o, aprofundando a polariza\u00e7\u00e3o no interior da sociedade a tal ponto de inviabilizar poss\u00edvel converg\u00eancia de interesses internos em torno de rumo alvissareiro ao pa\u00eds. Nesse cen\u00e1rio, o horizonte da decad\u00eancia nacional reascendeu, impondo a depend\u00eancia externa de \u201cmilagres\u201d.<\/p>\n<p>De acordo com seu livro \u201cVis\u00e3o do Para\u00edso\u201d, S\u00e9rgio Buarque de Holanda ensina como a hist\u00f3ria do Brasil se constitui enquanto prociss\u00e3o de milagres frente \u00e0 aus\u00eancia de projeto da na\u00e7\u00e3o. Ou seja, a depend\u00eancia de oportunidades que, forjadas a partir do exterior, mobilizassem a economia de tempos em tempos, conforme o legado dos ciclos de exporta\u00e7\u00e3o extrativa durante as condi\u00e7\u00f5es de Col\u00f4nia (1500-1822), Imp\u00e9rio (1822-1889) e Rep\u00fablica Velha (1889-1930).<\/p>\n<p>Com isso, percebe-se como a declara\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia nacional em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 metr\u00f3pole portuguesa, h\u00e1 quase 200 anos, n\u00e3o se mostrou suficiente para que o Brasil constru\u00edsse, de fato, um projeto de na\u00e7\u00e3o. Tampouco a ascens\u00e3o da Rep\u00fablica, que rompeu com o regime mon\u00e1rquico e consolidou o capitalismo enquanto modo de produ\u00e7\u00e3o dominante no pa\u00eds, permitiu abandonar a \u201cera dos milagres\u201d.<\/p>\n<p>Foi somente com a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, capaz de colocar em marcha a industrializa\u00e7\u00e3o nacional, que emergiu a for\u00e7a do protagonismo interno para construir um projeto de na\u00e7\u00e3o moderna e civilizada. Aos \u201ctrancos e barrancos\u201d, o projeto nacional se viabilizou e demonstrou ser verdadeiro \u00eaxito internacional, permitindo que o pa\u00eds transitasse \u2013 em pouco menos de cinquenta anos \u2013 da situa\u00e7\u00e3o herdada de \u201cgrande fazenda\u201d, at\u00e9 a d\u00e9cada de 1930, para o privilegiado posto de economia industrial e com elevado desempenho econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>O desenvolvimento nacional foi obra de s\u00e1bia constru\u00e7\u00e3o interna da converg\u00eancia pol\u00edtica em meio a constrangimentos de toda ordem, impostos por posi\u00e7\u00f5es opostas e, por isso, geradores de contradi\u00e7\u00f5es ineg\u00e1veis. A desigualdade nacional n\u00e3o seria a \u00fanica, por\u00e9m a mais importante a expressar o quanto o reformismo \u2013 sempre adiado \u2013 conviveu com a meta de moderniza\u00e7\u00e3o, ainda que de tra\u00e7o conservador.<\/p>\n<p>A soberania estabelecida em rela\u00e7\u00e3o ao distanciamento da depend\u00eancia estrangeira evidenciou o quanto a experi\u00eancia brasileira da industrializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi obra de \u201cmilagre\u201d, mas de um grande projeto de na\u00e7\u00e3o. Todavia, diante da rapidez com que os governos Temer e Bolsonaro, em meio \u00e0 entrega da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, cortam os la\u00e7os de converg\u00eancia com os interessas nacionais, alcan\u00e7a prioridade novamente a depend\u00eancia do exterior e, por assim dizer, a poss\u00edvel volta da \u201cera dos milagres\u201d.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o governo Temer aprovou, em tempo recorde de apenas cinco meses ap\u00f3s a sua ascens\u00e3o, o projeto de Lei 4567\/16, do senador Jos\u00e9 Serra (PSDB_SP) que desobrigou a Petrobras de ser a operadora de todos os blocos de explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal, conforme estabelecido pelo governo Lula.<\/p>\n<p>Com a mudan\u00e7a no regime de partilha da produ\u00e7\u00e3o, defendida com \u00eanfase pelas grandes empresas multinacionais, a privatiza\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou atrav\u00e9s das sucessivas rodadas de licita\u00e7\u00f5es dos blocos de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural.<\/p>\n<p>Agora \u00e9 o governo Bolsonaro que comemora <a href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/sem-categoria\/2019\/06\/perda-de-soberania-e-ataque-a-industria-sao-riscos-do-acordo-entre-mercosul-e-ue-dizem-criticos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">o acordo de livre com\u00e9rcio<\/a> entre o Mercosul e a Uni\u00e3o Europeia que esvazia ainda mais a soberania sobre a pol\u00edtica econ\u00f4mica e social, subordinando legisla\u00e7\u00f5es e jurisdi\u00e7\u00f5es internas e atacando o que resta do sistema produtivo manufatureiro nacional. Nesta perspectiva, o Brasil adere ao neocolonialismo e transfere suas possibilidades de vitalidade econ\u00f4mica e mobilidade social ao aparecimento de algum \u201cmilagre\u201d proveniente do exterior.<\/p>\n<p><strong>Fonte: Rede Brasil Atual<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O golpe de 2016 colocou fim \u00e0 perspectiva de projeto da na\u00e7\u00e3o, aprofundando a polariza\u00e7\u00e3o no interior da sociedade a tal ponto de inviabilizar poss\u00edvel converg\u00eancia de interesses internos em torno de rumo alvissareiro ao pa\u00eds. Nesse cen\u00e1rio, o horizonte da decad\u00eancia nacional reascendeu, impondo a depend\u00eancia externa de \u201cmilagres\u201d. 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