{"id":6996,"date":"2019-07-01T20:19:01","date_gmt":"2019-07-01T23:19:01","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/as-razoes-da-desigualdade-de-renda-do-trabalho-sao-politicas-e-nao-educacionais\/"},"modified":"2019-07-01T20:19:01","modified_gmt":"2019-07-01T23:19:01","slug":"as-razoes-da-desigualdade-de-renda-do-trabalho-sao-politicas-e-nao-educacionais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/as-razoes-da-desigualdade-de-renda-do-trabalho-sao-politicas-e-nao-educacionais\/","title":{"rendered":"As raz\u00f5es da desigualdade de renda do trabalho s\u00e3o pol\u00edticas, e n\u00e3o educacionais"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/590395-as-razoes-da-desigualdade-de-renda-do-trabalho-sao-politicas-e-nao-educacionais-entrevista-especial-com-rogerio-barbosa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">IHU<\/a> \u2013 A inclus\u00e3o de novos dados na an\u00e1lise sobre as <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579759-discurso-do-estado-minimo-inebria-o-enfrentamento-das-desigualdades\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">causas da desigualdade<\/a> e, em particular, da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/188-noticias\/noticias-2018\/579146-economia-e-sociedade-renda-e-trabalho-e-hora-de-mudar-artigo-de-luigino-bruni\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desigualdade de renda do trabalho<\/a>, permite uma vis\u00e3o abrangente e mais complexa do fen\u00f4meno e contesta antigas teorias, como aquela amplamente difundida no <strong>Brasil<\/strong>, de que a <strong>desigualdade de renda do trabalho<\/strong> \u00e9 explicada pelo n\u00edvel de escolaridade dos indiv\u00edduos. Essa vis\u00e3o \u00e9 apresentada na entrevista a seguir pelo soci\u00f3logo <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/584154-acesso-universal-a-educacao-e-insuficiente-para-diminuir-desigualdade-socioeconomica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Rog\u00e9rio Barbosa<\/a>, autor da tese <em>A Educa\u00e7\u00e3o e a Desigualdade da Renda do Trabalho: Um enfoque sociol\u00f3gico<\/em> (2017). Nessa pesquisa, ele questiona \u201ca hist\u00f3ria que se conta no <strong>Brasil<\/strong>, segundo a qual a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a chave para se combater a <strong>desigualdade<\/strong>\u201d. De acordo com ele, a an\u00e1lise acerca do aumento da desigualdade de renda do trabalho entre anos 1960 e 1970 mostra que o aumento da <strong>desigualdade de renda do trabalho<\/strong> no per\u00edodo provavelmente esteve relacionado a raz\u00f5es pol\u00edticas, como o ajuste fiscal feito \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n<p>Segundo o soci\u00f3logo, os dados daquele per\u00edodo sugerem que \u201ca <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/579997-a-educacao-esta-nocauteada-entrevista-com-gaudencio-frigotto\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">educa\u00e7\u00e3o<\/a> como pol\u00edtica urgente para reduzir a <strong>desigualdade socia<\/strong>l n\u00e3o \u00e9 efetiva\u201d e \u201cao focar demais na educa\u00e7\u00e3o\u201d com o objetivo de enfrentar as desigualdades de renda do trabalho, \u201cdeixamos de lado causas muito mais urgentes e de curto prazo que podem ter afetado as tend\u00eancias para enfrentar as desigualdades\u201d. Entre as medidas que podem ser efetivas na redu\u00e7\u00e3o das disparidades salariais, <strong>Barbosa<\/strong> menciona o enfrentamento do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/575443-onu-as-mulheres-ganham-23-menos-que-os-homens-o-maior-roubo-da-historia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">gap salarial entre homens e mulheres<\/a>, a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/588425-bolsonaro-oficializa-proposta-para-acabar-com-valorizacao-real-do-salario-minimo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">valoriza\u00e7\u00e3o real do sal\u00e1rio m\u00ednimo<\/a>\u00a0e uma mudan\u00e7a no atual <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/563575-a-premissa-do-sistema-tributario-e-cobrar-impostos-dos-trabalhadores-entrevista-especial-com-evilasio-salvador\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">sistema tribut\u00e1rio<\/a>, permitindo uma taxa\u00e7\u00e3o mais progressiva.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por telefone \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong>, o soci\u00f3logo tamb\u00e9m comenta a atual crise do pa\u00eds e frisa que desde 2016 observa-se \u201cum aumento da pobreza\u201d. E assegura: \u201cEssa situa\u00e7\u00e3o diz respeito ao que temos feito e quais s\u00e3o os efeitos das nossas a\u00e7\u00f5es sobre a mudan\u00e7a do quadro\u201d.<\/p>\n<p><strong>Rog\u00e9rio Barbosa<\/strong> \u00e9 formado em Ci\u00eancias Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre e doutor em Sociologia pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). \u00c9 pesquisador do Centro de Estudos da Metr\u00f3pole (CEM) e do Centro Brasileiro de An\u00e1lises e Planejamento (Cebrap). Atualmente realiza p\u00f3s-doutorado no Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da USP, estudando as tend\u00eancias e determinantes da desigualdade da renda do trabalho no Brasil nos \u00faltimos 60 anos.<\/p>\n<h3>Confira a entrevista:<\/h3>\n<p><strong>Em que consiste a sua pesquisa sobre a correla\u00e7\u00e3o entre educa\u00e7\u00e3o e desigualdade de renda do trabalho no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p>No doutorado, eu estava bastante interessado em entender de que forma a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/582515-os-numeros-do-ideb-sao-o-reflexo-da-desigualdade-deste-pais-entrevista-com-andressa-pellanda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">educa\u00e7\u00e3o afeta a desigualdade de renda do trabalho<\/a>. Do ponto de vista das teorias sobre renda e mercado de trabalho, h\u00e1 uma narrativa mais ou menos consolidada de que existiria uma corrida entre o sistema educacional e as demandas do mercado de trabalho em fun\u00e7\u00e3o dos avan\u00e7os t\u00e9cnicos. Segundo essa teoria, em momentos de r\u00e1pido <strong>desenvolvimento econ\u00f4mico<\/strong> haveria uma escassez de <strong>m\u00e3o de obra qualificada<\/strong>. Como o mercado de trabalho n\u00e3o encontrava trabalhadores qualificados para preencher esses postos de trabalho, estaria disposto a pagar mais por profissionais qualificados e, em fun\u00e7\u00e3o disso, pessoas com gradua\u00e7\u00e3o em \u00e1reas estrat\u00e9gicas, por exemplo, poderiam ter sal\u00e1rios muito altos.<\/p>\n<p>Este cen\u00e1rio, segundo essa teoria, elevaria a <strong>desigualdade<\/strong>, porque esses profissionais come\u00e7ariam a se distanciar da m\u00e9dia da popula\u00e7\u00e3o, se transformando numa esp\u00e9cie de elite. Essa explica\u00e7\u00e3o tornou-se bastante convencional no <strong>Brasil<\/strong>, principalmente nos anos 1960 e 1970, quando o pa\u00eds experimentou o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/186-noticias\/noticias-2017\/574103-o-lado-obscuro-do-milagre-economico-da-ditadura-o-boom-da-desigualdade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">milagre econ\u00f4mico<\/a>. Durante esse per\u00edodo, houve anos em que o PIB brasileiro cresceu cerca de 11% ao ano e, segundo te\u00f3ricos da \u00e9poca, a escassez de m\u00e3o de obra qualificada teria provocado o <strong>aumento da desigualdade de renda do trabalho<\/strong> naquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias dessa leitura acabaram orientando v\u00e1rias pesquisas posteriores, principalmente nas d\u00e9cadas de 1990 e 2000, quando o tema da <strong>desigualdade<\/strong> se tornou novamente uma pauta no <strong>Brasil<\/strong>. Come\u00e7amos a ver redu\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas e muito consistentes da <strong>desigualdade de renda do trabalho<\/strong> desde 1995, e esse cen\u00e1rio se acelerou depois de 2001 e mais ainda depois de 2005. A partir dessas mudan\u00e7as, convencionou-se dizer que estava havendo uma revers\u00e3o do processo que aconteceu nos anos 1970.<\/p>\n<p>Sempre fiquei incomodado com essa leitura, porque os dados utilizados para a sua formula\u00e7\u00e3o eram incompletos e n\u00e3o apresentavam informa\u00e7\u00f5es precisas sobre todo o per\u00edodo. Por isso, minha pesquisa de doutorado consistiu basicamente em fazer uma grande revis\u00e3o desses n\u00fameros e propor alguns avan\u00e7os interpretativos.<\/p>\n<p>J\u00e1 no p\u00f3s-doutorado, comecei a coletar novas informa\u00e7\u00f5es sobre aquele per\u00edodo, principalmente de registros administrativos e das <strong>Pesquisas Nacionais por Amostra de Domic\u00edlios \u2013 Pnads<\/strong>, que n\u00e3o eram muito utilizadas. As Pnads come\u00e7aram a ser realizadas em 1967 e emitiram seus primeiros relat\u00f3rios com informa\u00e7\u00f5es sobre renda a partir de 1968, mas nunca se tornaram, de fato, bancos de dados com os quais os pesquisadores pudessem trabalhar. Os <strong>microdados da Pnad<\/strong>\u00a0surgiram em\u00a01973, mas quase ningu\u00e9m os utilizava, porque essa Pnad\u00a0era muito diferente das outras. Foi s\u00f3 a partir de 1976 que a Pnad passou a ser utilizada por todos os pesquisadores. Ent\u00e3o, geralmente, as s\u00e9ries da Pnad come\u00e7aram em 1976 e depois em 1981. Isso significa que n\u00e3o conseguimos explorar muito bem aquele per\u00edodo crucial do <strong>aumento da desigualdade<\/strong> que fez o <strong>Brasil<\/strong> se tornar <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/575764-de-29-paises-entre-desenvolvidos-e-em-desenvolvimento-o-brasil-esta-entre-os-cinco-paises-mais-desiguais-diz-estudo-de-centro-da-onu\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">um dos pa\u00edses mais desiguais do mundo<\/a>.<\/p>\n<p>Trabalhos muito importantes come\u00e7aram a aparecer mais recentemente, como a pesquisa de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/572634-a-questao-e-que-tipo-de-pais-queremos-ser-a-desigualdade-social-brasileira-e-sua-vinculacao-a-dinamica-politica-e-a-estrutura-do-estado-entrevista-especial-com-pedro-ferreira-de-souza\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pedro Herculano Guimar\u00e3es Ferreira de Souza<\/a>, do <strong>Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada \u2013 Ipea<\/strong>, na qual ele faz uma investiga\u00e7\u00e3o sobre desigualdades a partir de dados tribut\u00e1rios. Ele conseguiu construir uma s\u00e9rie de longo prazo, come\u00e7ando na d\u00e9cada de 1920 e se estendendo at\u00e9 2013. Ele analisou a <strong>desigualdade no topo da distribui\u00e7\u00e3o<\/strong> e captou informa\u00e7\u00e3o sobre lucros, dividendos, rendimentos financeiros, coisas que geralmente n\u00e3o conseguimos identificar nas pesquisas domiciliares. A partir disso, observou que a <strong>desigualdade<\/strong> n\u00e3o aumentou durante o milagre econ\u00f4mico, mas, sim, durante o per\u00edodo de arrocho fiscal, entre 1964 e 1967 \u2014 o milagre come\u00e7a em 1968. Portanto, ele tem evid\u00eancias de que o ajuste fiscal e o arrocho econ\u00f4mico foram as causas da desigualdade, e n\u00e3o tanto o crescimento econ\u00f4mico, porque durante o per\u00edodo de crescimento a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571690-brasil-nao-redistribuiu-renda-do-topo-para-a-base-da-piramide\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">concentra\u00e7\u00e3o do topo<\/a> ficou est\u00e1vel. No per\u00edodo recente, ele observa que a desigualdade ficou constante e n\u00e3o caiu dos anos 2000 para c\u00e1, pelo menos no topo.<\/p>\n<p>Saber o que acontece no topo \u00e9 muito informativo, mas n\u00e3o \u00e9 a hist\u00f3ria inteira. Ent\u00e3o, meu trabalho se encaixa a\u00ed, na tentativa de<\/p>\n<p>1) revisar as interpreta\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas que atribu\u00edam \u00e0 <strong>escassez de m\u00e3o de obra<\/strong> as principais raz\u00f5es para a <strong>desigualdade de renda do trabalho<\/strong> e<\/p>\n<p>2) complementar o trabalho do <strong>Pedro<\/strong>, olhando para a base e para o <strong>mercado de trabalho<\/strong> na tentativa de dar uma vis\u00e3o mais global do que poderia estar acontecendo naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p><strong>Que avan\u00e7os e revis\u00f5es a sua pesquisa prop\u00f5e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura que se fazia acerca da correla\u00e7\u00e3o entre educa\u00e7\u00e3o e desigualdade de renda do trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>A primeira quest\u00e3o que observo \u00e9 que o <strong>milagre econ\u00f4mico<\/strong> pode ser analisado em dois momentos: o primeiro \u00e9 de 1968 a 1970 e o segundo \u00e9 de 1970 a 1973. Por que fa\u00e7o essa divis\u00e3o? Porque o per\u00edodo que vai at\u00e9 1970 \u00e9 justamente aquele que os autores cl\u00e1ssicos estavam analisando: eles s\u00f3 tinham acesso aos dados do censo de 1960 e do censo de 1970. Quer dizer, eles fizeram uma an\u00e1lise sobre o que ocorreu ao longo de dez anos, mas n\u00e3o tinham informa\u00e7\u00f5es sobre o que aconteceu no meio do caminho ao longo desses dez anos. O <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/582267-como-o-brasil-alimenta-a-desigualdade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Langoni<\/a> [<strong>Carlos Geraldo Langoni<\/strong>], quando fez seu trabalho cl\u00e1ssico, olhava esses dois dados, mas n\u00e3o tinha informa\u00e7\u00f5es sobre o que havia acontecido no meio da d\u00e9cada. Isso significa que se ele identificou um aumento da desigualdade naquele per\u00edodo, ela poderia ter ocorrido em um destes tr\u00eas momentos:<\/p>\n<p>1) no in\u00edcio dos anos 1960, por conta da crise econ\u00f4mica e da crise pol\u00edtica, que acabou desembocando no golpe;<\/p>\n<p>2) no meio da d\u00e9cada, que vai de 1964 a 1967, quando foi criado o <strong>Programa de Ajuste Econ\u00f4mico<\/strong> do Governo, que foi um programa de ajuste fiscal;<\/p>\n<p>3) ou ainda depois da cria\u00e7\u00e3o de um programa econ\u00f4mico de desenvolvimento que foi implementado pelo <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/571634-um-projeto-de-nacao-por-favor\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Delfim Netto<\/a> [<strong>Ant\u00f4nio Delfim Netto<\/strong>] e que levou ao milagre.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se houve tr\u00eas momentos t\u00e3o d\u00edspares em uma \u00fanica d\u00e9cada \u2014 uma crise, um ajuste e um crescimento muito r\u00e1pido \u2014, a desigualdade pode ter subido por qualquer raz\u00e3o: pode ter subido porque a crise atingiu os trabalhadores, e a\u00ed a <strong>desigualdade<\/strong> teria subido no come\u00e7o da d\u00e9cada; pode ter subido no meio da d\u00e9cada, porque o ajuste foi seletivo e privilegiou alguns grupos e n\u00e3o outros; ou pode ter subido no final da d\u00e9cada, durante o milagre econ\u00f4mico, eventualmente pela raz\u00e3o apontada pela teoria da \u00e9poca, de que a qualifica\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra foi super-recompensada para os poucos trabalhadores qualificados.<\/p>\n<p>Os dados sobre o meio da d\u00e9cada s\u00e3o muito importantes e, portanto, coletar informa\u00e7\u00f5es sobre esse per\u00edodo foi o meu primeiro objetivo. Infelizmente, ainda n\u00e3o consegui verificar os dados do come\u00e7o da d\u00e9cada e tenho informa\u00e7\u00f5es somente do meio desse per\u00edodo para frente. O que observo com esses dados \u00e9 que n\u00e3o houve aumento da <strong>desigualdade de renda do trabalho<\/strong> nesse per\u00edodo final. Justamente quando o milagre come\u00e7ou a acontecer, a desigualdade de renda do trabalho n\u00e3o aumentou; pelo contr\u00e1rio, no primeiro per\u00edodo do milagre ocorre uma estabilidade. Isso confirma os dados do <strong>Pedro<\/strong> e nos indica que se a desigualdade de renda do trabalho aumentou, isso aconteceu antes do milagre. Ainda n\u00e3o sei se a desigualdade de renda do trabalho aumentou durante a crise econ\u00f4mica ou durante o <strong>ajuste econ\u00f4mico<\/strong>, mas certamente n\u00e3o foi durante o milagre. Ent\u00e3o, aquela teoria de que a escassez de m\u00e3o de obra teria levado \u00e0 desigualdade de renda do trabalho, n\u00e3o parece se sustentar.<\/p>\n<p>Os dados da pesquisa do <strong>Pedro<\/strong> sugerem que, no topo, a <strong>desigualdade de renda<\/strong> se deu durante o<strong> ajuste fiscal<\/strong>; n\u00e3o sei se na base tamb\u00e9m foi assim. Por enquanto, fico com a interpreta\u00e7\u00e3o do Pedro de que a <strong>desigualdade de renda do trabalho<\/strong> teria aumentado durante o ajuste fiscal. Essa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 importante porque, se ela estiver correta, a teoria cl\u00e1ssica cai. O <strong>Langoni<\/strong> observou somente o in\u00edcio do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/529782-o-golpe-e-a-construcao-da-dependencia-financeira-brasileira-entrevista-especial-com-fabio-antonio-de-campos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">milagre econ\u00f4mico<\/a> nos anos 70 e n\u00e3o observou o que o milagre seria capaz de fazer nos anos seguintes. De 1968 a 1970, a desigualdade de renda do trabalho n\u00e3o aumentou e a <strong>desigualdade no topo<\/strong> tamb\u00e9m n\u00e3o, ent\u00e3o o milagre econ\u00f4mico, ao menos nesses primeiros anos, n\u00e3o foi respons\u00e1vel por nada com efeitos distributivos. A desigualdade, contudo, subiu entre os anos 1960 e 1970, mas ela pode ter subido em qualquer ano dentro desse per\u00edodo. Se a desigualdade subiu no per\u00edodo do ajuste fiscal, como a pesquisa do <strong>Pedro<\/strong> sugere, ent\u00e3o o aumento da desigualdade n\u00e3o tem nada a ver com a demanda por m\u00e3o de obra, porque as empresas estavam cortando custos. Se o aumento da desigualdade ocorreu durante a crise, tamb\u00e9m n\u00e3o tem nada a ver com a demanda por m\u00e3o de obra, porque as empresas estavam fechando. N\u00e3o estou negando a exist\u00eancia de uma demanda de <strong>m\u00e3o de obra qualificada<\/strong>; s\u00f3 estou dizendo que n\u00e3o foi isso que aumentou a desigualdade. A <strong>desigualdade<\/strong>, portanto, tem a ver com outra coisa, provavelmente por raz\u00f5es pol\u00edticas, como os incentivos seletivos, o fechamento dos sindicatos \u2014 essas quest\u00f5es devem ser mais investigadas futuramente.<\/p>\n<p>O per\u00edodo subsequente, de 1970 a 1973, n\u00e3o foi observado pelos analistas, porque eles s\u00f3 consideravam os dados do <strong>censo de 1970<\/strong> e n\u00e3o olhavam o que acontecia depois. Entretanto, a partir desse momento h\u00e1 um grande aumento da desigualdade de renda do trabalho, durante o<strong> milagre econ\u00f4mico<\/strong>, mas esse fen\u00f4meno n\u00e3o esteve correlacionado \u00e0 <strong>educa\u00e7\u00e3o<\/strong>; esteve associado a fatores que n\u00e3o conseguimos identificar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se o <strong>milagre econ\u00f4mico<\/strong> pudesse ser analisado em duas etapas \u2014 uma antes de 1970 e outra depois \u2014, nas duas, a <strong>educa\u00e7\u00e3o<\/strong> n\u00e3o cumpriu um papel t\u00e3o importante assim no aumento da <strong>desigualdade de renda do trabalho<\/strong>. Na primeira etapa, a desigualdade nem mesmo aumentou nos primeiros anos do milagre; ela aumentou antes. Na segunda etapa, ela aumentou durante os anos do milagre econ\u00f4mico, mas teve pouco a ver com a educa\u00e7\u00e3o. Essa an\u00e1lise tem um significado muito grande para o per\u00edodo recente, que corresponde ao ano de 1995 e depois ao ano de 2005: esse per\u00edodo \u00e9 lido como se fosse uma revers\u00e3o da <strong>escassez de m\u00e3o de obra qualificada<\/strong>. Mas se n\u00e3o houve esse processo, ent\u00e3o o per\u00edodo recente n\u00e3o pode ser a revers\u00e3o de um processo que n\u00e3o aconteceu. Reinterpretar aqueles anos iniciais \u00e9 fundamental para reler o per\u00edodo recente.<\/p>\n<p><strong>Como o senhor interpreta o per\u00edodo recente?<\/strong><\/p>\n<p>No per\u00edodo recente ocorreram <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/170-noticias-2014\/538219-houve-avanco-na-educacao-mas-e-insuficiente\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">avan\u00e7os educacionais<\/a> e uma redu\u00e7\u00e3o dos pr\u00eamios salariais. Essa queda dos pr\u00eamios salariais n\u00e3o \u00e9 uma revers\u00e3o de um processo passado de <strong>escassez de m\u00e3o de obra qualificada<\/strong>, mas tem a ver com outras coisas, como o crescimento da heterogeneidade de pessoas que frequentam o <strong>ensino superior<\/strong>: muitas pessoas ingressaram no ensino superior e pode ter havido um excesso de profissionais numa determinada \u00e1rea, por exemplo. Outra situa\u00e7\u00e3o \u00e9 a heterogeneidade das pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es de ensino: houve uma <strong>perda de qualidade<\/strong>, porque uma s\u00e9rie de institui\u00e7\u00f5es hoje n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o bem reguladas como eram as do passado. Tamb\u00e9m h\u00e1 o fato de que a estrutura produtiva brasileira n\u00e3o mudou tanto assim. Ent\u00e3o, tem uma grande entrada de pessoas com <strong>diploma superior no mercado de trabalho<\/strong>, o qual ainda n\u00e3o est\u00e1 preparado para absorver esses profissionais em postos qualificados. O pa\u00eds n\u00e3o tem um mercado de trabalho extremamente din\u00e2mico, que comporta tantos graduados assim. Como o <strong>Brasil<\/strong> tem uma <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/543968-a-lenta-agonia-da-industria-brasileira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">estrutura produtiva que n\u00e3o se modernizou<\/a> e a oferta de m\u00e3o de obra est\u00e1 se qualificando, ela come\u00e7a a se enfileirar no <strong>mercado de trabalho<\/strong>. Hoje um diploma n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o valorizado quanto era antes, porque ele ainda n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o demandado. Talvez o problema esteja mais do lado da estrutura produtiva do que do lado dos diplomas.<\/p>\n<p>\u00c9 interessante perceber que novos dados est\u00e3o possibilitando novas interpreta\u00e7\u00f5es, e essa \u00e9 uma tend\u00eancia recente nos estudos mundiais sobre <strong>desigualdades<\/strong>. At\u00e9 metade dos anos 2000, boa parte das pesquisas eram fundamentadas em microdados de pesquisas domiciliares e censos demogr\u00e1ficos. A partir de ent\u00e3o, em boa medida em fun\u00e7\u00e3o do trabalho do <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/[Thomas]\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">[Thomas]\u00a0Piketty<\/a>, muitos pesquisadores passaram a incluir em suas pesquisas <strong>dados tribut\u00e1rios<\/strong> e dados administrativos em geral, inclusive cadastros de pobres, dados relativos a seguro social e dados hist\u00f3ricos \u2014 houve muito desenvolvimento de dados hist\u00f3ricos, e minha pesquisa se localiza nesse panorama maior, dentro do qual dados hist\u00f3ricos e administrativos n\u00e3o t\u00e3o convencionais passam a trazer novos vislumbres sobre o que aconteceu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s <strong>desigualdades<\/strong>. Enquanto s\u00f3 consegu\u00edamos fazer an\u00e1lises com base em microdados, boa parte da varia\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno n\u00e3o era enxergada: n\u00e3o observ\u00e1vamos o que acontecia no topo e no passado, mas o uso de novos dados tem mudado bastante as an\u00e1lises. Boa parte disso tamb\u00e9m tem a ver com o desenvolvimento t\u00e9cnico recente que permite usar esses dados de maneira mais otimizada. Os dados estavam a\u00ed e boa parte deles est\u00e1 on-line no <strong>IBGE<\/strong>, no <strong>Minist\u00e9rio do Trabalho<\/strong>, ou em diversas institui\u00e7\u00f5es que t\u00eam reposit\u00f3rios digitais de alt\u00edssima qualidade. O que n\u00e3o havia antes, talvez, era um arsenal t\u00e9cnico, econom\u00e9trico, estat\u00edstico, suficiente para dar conta das informa\u00e7\u00f5es que esses dados podem trazer.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre a <strong>correla\u00e7\u00e3o entre educa\u00e7\u00e3o e desigualdade<\/strong> <strong>de renda do trabalho<\/strong> \u00e9 apenas a primeira disputa num panorama muito maior de contribui\u00e7\u00f5es que podem vir por a\u00ed. A minha iniciativa tem a ver com a hist\u00f3ria que se conta no Brasil, segundo a qual a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a chave para se <strong>combater a desigualdade<\/strong>. Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito importante e, de fato, qualifica as pessoas para o mercado de trabalho, gera oportunidade e mobilidade social; no entanto, a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um investimento de longo prazo. Num trabalho que fiz em conjunto com o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/535734-desigualdade-de-renda-no-brasil-os-10-mais-ricos-e-a-metade-mais-pobre-entrevista-especial-com-marcelo-medeiros\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Marcelo Medeiros<\/a> e o <strong>Fl\u00e1vio Carvalhaes<\/strong>, observamos que o efeito da educa\u00e7\u00e3o demora 40 anos para acontecer. Se come\u00e7armos hoje a produzir uma s\u00e9rie de pessoas ultraeducadas, \u00e9 poss\u00edvel at\u00e9 que haja um aumento da desigualdade, porque essas pessoas ser\u00e3o muito melhores do que as outras e ir\u00e3o se destacar. Ent\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o como pol\u00edtica urgente para <strong>reduzir a desigualdade social<\/strong> n\u00e3o \u00e9 efetiva; ela serve como um grande planejamento para o que o pa\u00eds quer ser no futuro. Al\u00e9m disso, a educa\u00e7\u00e3o gera ganhos de cidadania, conhecimento pol\u00edtico e uma s\u00e9rie de outras coisas que n\u00e3o se revertem apenas no <strong>mercado de trabalho<\/strong>.<\/p>\n<p>Com isso, n\u00e3o quero dizer que a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja importante. Estou querendo dizer que 1) a educa\u00e7\u00e3o como forma de investimento para <strong>redu\u00e7\u00e3o das desigualdades<\/strong> s\u00f3 traz ganhos de muito longo prazo, e 2) ao focar demais na educa\u00e7\u00e3o, acabamos deixando de lado causas muito mais urgentes e de curto prazo que podem ter afetado as tend\u00eancias para <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/574683-para-enfrentar-as-desigualdades-sociais-nao-basta-olhar-para-o-retrato-atual-entrevista-especial-com-tereza-campello\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">enfrentar as desigualdades<\/a>. Um exemplo disso \u00e9 aquela an\u00e1lise que mencionei anteriormente sobre as causas do aumento da desigualdade durante o milagre econ\u00f4mico. Provavelmente, aquele per\u00edodo deve ser reinterpretado a partir de uma nova \u00f3tica, pois temos um vazio explicativo das causas do <strong>aumento da desigualdade<\/strong> naquele momento hist\u00f3rico. Do mesmo modo, temos que recontar um pouco a hist\u00f3ria do per\u00edodo recente e pensar melhor o papel que outros fatores tiveram no aumento das desigualdades. O foco excessivo na <strong>educa\u00e7\u00e3o<\/strong> faz com que n\u00e3o se levantem as outras hip\u00f3teses.<\/p>\n<p><strong>No per\u00edodo recente da hist\u00f3ria houve uma insist\u00eancia excessiva na tese de que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a chave para enfrentar as desigualdades no pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>Certamente. Em geral, economistas com uma vis\u00e3o ligada \u00e0 <strong>teoria do capital humano<\/strong> sempre v\u00e3o falar sobre isso. Eles n\u00e3o est\u00e3o errados, mas a quest\u00e3o \u00e9 qual \u00e9 o prazo de impacto da educa\u00e7\u00e3o: \u00e9 de curto ou de longo prazo? Dizer que a educa\u00e7\u00e3o vai solucionar a <strong>desigualdade<\/strong> imediatamente, \u00e9 falacioso. Do ponto de vista de outros interesses, como se lida de imediato com a desigualdade? Eventualmente, com uma pol\u00edtica salarial. Estudos recentes, como o da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/578126-mulheres-dedicam-o-dobro-de-horas-que-os-homens-em-cuidar-de-pessoas-e-afazeres-domesticos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Alessandra Brito<\/a> e da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/573590-22-da-populacao-brasileira-vive-na-pobreza-de-renda-politicas-sociais-nao-podem-ser-afetadas-pela-crise-entrevista-especial-com-celia-lessa-kerstenetzky\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Celia Kerstenetzky<\/a>, t\u00eam mostrado que os aumentos do sal\u00e1rio m\u00ednimo foram muito mais importantes do que outras medidas para enfrentar a desigualdade recente. Quer dizer, o <strong>sal\u00e1rio m\u00ednimo<\/strong> e a <strong>taxa\u00e7\u00e3o<\/strong> podem lidar com a desigualdade de uma forma mais imediata, mas essas medidas v\u00e3o contra os interesses dos empregadores e dos pol\u00edticos que querem privilegiar determinados grupos espec\u00edficos. Falar sobre educa\u00e7\u00e3o, geralmente, \u00e9 uma forma \u201cfaixa branca\u201d de resolver o problema, mas que na pr\u00e1tica n\u00e3o resolve a quest\u00e3o no curto prazo.<\/p>\n<p>Medidas de curto prazo, como acesso a cr\u00e9dito e desenvolvimento de um mercado de consumo, possibilitam a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade imediata e permitem a acelera\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica de consumo das fam\u00edlias. Mas, geralmente, pol\u00edticas dessa natureza afetam as partes interessadas no conflito distributivo. Tem duas formas pelas quais a <strong>educa\u00e7\u00e3o<\/strong> acaba sendo priorizada. Uma, por raz\u00f5es puramente acad\u00eamicas, s\u00e9rias e te\u00f3ricas, que s\u00e3o as an\u00e1lises econ\u00f4micas. Outra, por raz\u00f5es pol\u00edticas, que se valem do argumento <strong>pr\u00f3-educa\u00e7\u00e3o<\/strong> para tirar da reta outros aspectos que poderiam ajudar a enfrentar o problema da <strong>desigualdade<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Se a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a chave para enfrentar as desigualdades de renda do trabalho, quais s\u00e3o os elementos que contribuiriam nesse sentido?<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo que tiv\u00e9ssemos grandes <strong>investimentos educacionais<\/strong>, levar\u00edamos um tempo para reverter as desigualdades. O que temos que fazer hoje para reduzir as disparidades salariais? Podemos come\u00e7ar com <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/576775-salario-mais-baixo-para-as-mulheres-reduz-o-crescimento-do-pais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">pol\u00edticas de redu\u00e7\u00e3o do gap de g\u00eanero<\/a>, diminuindo o diferencial de pagamento entre homens e mulheres. Isso come\u00e7a dentro das empresas, com <strong>pol\u00edticas de inclus\u00e3o das mulheres<\/strong>. Uma economista americana costuma dizer que mulheres, frequentemente, precisam de empregos com hor\u00e1rios mais flex\u00edveis, ainda que trabalhem em tempo integral: elas at\u00e9 podem trabalhar 40 horas, mas em determinados per\u00edodos da vida, elas poderiam ter hor\u00e1rios mais flex\u00edveis, como durante a gravidez, durante os primeiros anos de um filho. Um dos fatores que causa o <strong>diferencial de renda entre as mulheres<\/strong> \u00e9 o nascimento do primeiro filho, porque mesmo que elas saiam do mercado de trabalho e depois retornem, o diferencial de experi\u00eancia e de sal\u00e1rio nunca mais se recupera e isso gera uma desigualdade muito grande. Se consegu\u00edssemos aliviar esse ponto, estar\u00edamos diminuindo a <strong>desigualdade<\/strong> em geral.<\/p>\n<p>Outra coisa important\u00edssima para reduzir a desigualdade de g\u00eanero \u00e9 a implementa\u00e7\u00e3o de creches no ensino infantil: a aus\u00eancia de uma <strong>pol\u00edtica p\u00fablica de cuidado das crian\u00e7as<\/strong>, mesmo nas idades mais tenras, \u00e9 algo que causa desigualdade, porque as mulheres \u00e0s vezes t\u00eam que ficar em casa para assumir uma posi\u00e7\u00e3o que elas poderiam n\u00e3o assumir caso houvesse uma pol\u00edtica p\u00fablica de cuidado das crian\u00e7as. Creches reduzem a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/186-noticias\/noticias-2017\/565578-desigualdade-de-genero-um-passo-atras-de-quase-10-anos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desigualdade de g\u00eanero<\/a> no mercado de trabalho porque liberam as mulheres para trabalhar no per\u00edodo em que elas estariam cuidando das crian\u00e7as. Existem tamb\u00e9m desigualdades relativas a promo\u00e7\u00f5es: o avan\u00e7o de <strong>mulheres e negros<\/strong> dentro das empresas \u00e9 dificultado. Essas s\u00e3o possibilidades de enfrentar as desigualdades de renda, e nem sequer trabalham com taxa\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m \u00e9 uma pol\u00edtica de <strong>redu\u00e7\u00e3o das desigualdades de renda<\/strong> important\u00edssima.<\/p>\n<p>O <strong>Brasil<\/strong> tem uma forma de impostos complicada, porque a maior parte da coleta de tributos vem de<strong> impostos indiretos<\/strong> sobre o consumo, ent\u00e3o pobres e ricos, ao comprarem o mesmo objeto, pagam o mesmo imposto. Isso \u00e9 <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/579080-reforma-tributaria-e-a-reducao-da-progressividde-do-imposto-reverter-a-origem-dos-tributos-de-impostos-sobre-consumo-e-servicos-para-impostos-sobre-a-renda-entrevista-especial-com-rodrigo-de-losso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">altamente regressivo<\/a>, porque os pobres acabam pagando muito mais da sua fra\u00e7\u00e3o de renda do que os ricos para comprar a mesma coisa. Para come\u00e7ar a resolver essa quest\u00e3o, n\u00e3o precisa nem aumentar a taxa de cobran\u00e7a total; basta mudar a forma de cobran\u00e7a na ala mais progressiva no sentido de tornar o imposto mais progressivo.<\/p>\n<p>Outro problema \u00e9 a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/578481-mordida-do-leao-poupa-lucros-de-super-ricos-e-mira-nos-salarios\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">isen\u00e7\u00e3o dos lucros e dividendos<\/a>, institu\u00edda nos anos 1990. Isso significa que uma pessoa f\u00edsica, ao transferir dinheiro da sua empresa para sua conta f\u00edsica individual, n\u00e3o paga imposto. Uma das justificativas para essa transa\u00e7\u00e3o \u00e9 que o imposto j\u00e1 foi tributado na empresa. A maioria dos pa\u00edses acaba tributando pouco na empresa e o restante no momento em que a pessoa f\u00edsica faz a extra\u00e7\u00e3o do seu rendimento. Com essa medida, fica mais dif\u00edcil para um indiv\u00edduo trazer para sua renda pessoal uma renda que \u00e9 da empresa, e ainda d\u00e1 incentivos para que a pr\u00f3pria empresa retenha parte da renda e reinvista, o que poderia se reverter na contrata\u00e7\u00e3o de mais pessoal, em investimento f\u00edsico etc. A <strong>isen\u00e7\u00e3o de lucros e dividendos<\/strong> pode prejudicar o investimento e aumenta a <strong>desigualdade<\/strong>.<\/p>\n<p>Outra medida que seria eficaz \u00e9 a al\u00edquota progressiva e mais faixas de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/570724-eficiencia-e-equidade-como-pilares-da-reforma-tributaria-entrevista-especial-com-rodrigo-orair\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">taxa\u00e7\u00e3o no imposto de renda de pessoa f\u00edsica<\/a>. A nossa al\u00edquota m\u00e1xima \u00e9 muito baixa e atinge pessoas que nem s\u00e3o t\u00e3o ricas. Uma pessoa pode pagar 27,5% mesmo n\u00e3o sendo parte dos mais ricos. Ent\u00e3o um <strong>imposto de renda<\/strong> mais escalonado e mais estratificado poderia ser uma <strong>pol\u00edtica de redistribui\u00e7\u00e3o de renda<\/strong>. Outra medida que alivia a base da redistribui\u00e7\u00e3o \u00e9 o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/556187-salario-minimo-duas-decadas-de-efeitos-positivos-sobre-a-reducao-da-pobreza-e-da-desigualdade-entrevista-especial-com-alessandra-scalioni\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">sal\u00e1rio m\u00ednimo<\/a>: uma pol\u00edtica nesse sentido poderia incidir imediatamente na desigualdade e, principalmente, na renda do trabalho.<\/p>\n<p>Por fim, existem as pol\u00edticas de transfer\u00eancia direta de renda, em especial o <strong>Bolsa Fam\u00edlia<\/strong> e o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/588332-dieese-proposta-do-governo-para-bpc-considera-taxas-distorcidas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada \u2013 BPC<\/a>. Mas o impacto dessas pol\u00edticas \u00e9 sobre a pobreza, sobre pessoas que vivem em condi\u00e7\u00f5es muito ruins e n\u00e3o conseguem ter acesso ao consumo. Esses programas n\u00e3o reduzem a <strong>desigualdade<\/strong>, mas tiram as pessoas do nada e d\u00e3o a elas algum benef\u00edcio. Dar 180 reais para quem n\u00e3o tem nada, melhora muito a vida dessas pessoas, mas n\u00e3o transforma a distribui\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p><strong>Em que consiste a segunda parte da sua pesquisa, que est\u00e1 analisando os efeitos da crise atual na desigualdade de renda do trabalho?<\/strong><\/p>\n<p>Recentemente, como a minha ideia \u00e9 tentar compreender a desigualdade de 1960 at\u00e9 o presente, acabei focando no per\u00edodo de 2012 para c\u00e1, a partir dos dados da <strong>Pnad Cont\u00ednua<\/strong>. A minha pesquisa recente ainda est\u00e1 no come\u00e7o e foca nos efeitos da crise sobre a <strong>distribui\u00e7\u00e3o<\/strong>. Podemos dividir esse per\u00edodo em quatro etapas.<\/p>\n<p>A <strong>primeira etapa vai de 2012 a 2014<\/strong> e \u00e9 uma continuidade do que vinha acontecendo anteriormente, uma <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/555447-houve-reducao-das-desigualdades-mas-70-da-nova-classe-media-pode-retornar-a-pobreza-entrevista-especial-com-ludolfo-paramio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">redu\u00e7\u00e3o da desigualdade<\/a>\u00a0guiada pela formaliza\u00e7\u00e3o de postos de trabalho. Em algum momento em 2014 se tem uma interrup\u00e7\u00e3o desse processo, quando a crise come\u00e7a a chegar no mercado de trabalho, os empregos param de ser gerados e uma fileira de pessoas se forma ao lado do mercado de trabalho.<\/p>\n<p>O <strong>desemprego<\/strong> come\u00e7a a surgir com for\u00e7a em 2014, avan\u00e7a lentamente em 2015 e se acelera muito em 2016. Essas pessoas basicamente v\u00e3o se acumulando na base da distribui\u00e7\u00e3o, porque elas n\u00e3o t\u00eam mais <strong>renda do trabalho<\/strong> \u2014 s\u00e3o pessoas com renda zero \u2014, e a infla\u00e7\u00e3o da base da distribui\u00e7\u00e3o gera desigualdade. Essas pessoas se distanciam do topo e da base e s\u00e3o jogadas ao relento.<\/p>\n<p>Logo em seguida, pessoas que ficaram <strong>desempregadas<\/strong> h\u00e1 muito tempo <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/589514-desalento-dos-trabalhadores-e-dos-empresarios\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">deixaram de procurar emprego<\/a> e h\u00e1 um crescimento dos desalentados, aqueles que n\u00e3o s\u00e3o computados como desempregados \u2014 a no\u00e7\u00e3o de desempregado \u00e9 estar procurando emprego. Esses desalentados n\u00e3o eram antigamente medidos pelo <strong>IBGE<\/strong>; s\u00f3 existiam algumas pesquisas estaduais, principalmente no estado de S\u00e3o Paulo, que mediam o desalento. Essas pessoas tamb\u00e9m t\u00eam renda zero. Ent\u00e3o, a <strong>segunda etapa \u00e9 o crescimento do desalento<\/strong>.<\/p>\n<p>A <strong>terceira etapa<\/strong> tem in\u00edcio em 2016, quando os <strong>sobreviventes do mercado de trabalho<\/strong> come\u00e7am a se tornar desiguais tamb\u00e9m. Nessa terceira etapa, o mercado formal passa a se distanciar do informal e as disparidades de renda come\u00e7am a aparecer. \u00c9 um per\u00edodo de grande instabilidade e de <strong>concentra\u00e7\u00e3o de renda<\/strong>. Isso acontece porque as pessoas que v\u00e3o sobrando no mercado formal t\u00eam alguns benef\u00edcios, como f\u00e9rias, d\u00e9cimo terceiro, participa\u00e7\u00e3o nos lucros, remunera\u00e7\u00f5es por horas extras, comiss\u00f5es, e as pessoas do mercado informal n\u00e3o recebem nada disso.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7am as demiss\u00f5es no mercado formal, o recebimento desses benef\u00edcios extras se torna cada vez mais escasso. Ent\u00e3o, ter d\u00e9cimo terceiro sal\u00e1rio passa a ser um privil\u00e9gio \u2014 o que n\u00e3o \u00e9 de fato um privil\u00e9gio \u2014, adicional de f\u00e9rias passa a ser um privil\u00e9gio, horas extras tamb\u00e9m passam a ser um diferencial. Essa dist\u00e2ncia entre o mercado formal e o informal come\u00e7a a se ampliar. E essa terceira etapa ainda \u00e9 uma fase de crescimento do desemprego. Portanto essas duas coisas acontecendo juntas \u2014 <strong>desemprego e desigualdade<\/strong> entre trabalhadores \u2014 fazem com que o ritmo da desigualdade se acelere imensamente.<\/p>\n<p>O ano de 2016 \u00e9 o que tem o maior crescimento da desigualdade, que quase desfaz o trabalho distributivo dos quatro ou cinco anos anteriores. O ritmo de <strong>crescimento da desigualdade<\/strong> recente \u00e9 mais r\u00e1pido do que o ritmo de redu\u00e7\u00e3o da desigualdade durante a d\u00e9cada de 2000. Estamos desfazendo o trabalho distributivo mais rapidamente do que ele foi feito. Por fim, depois de 2017, o desemprego entra em processo de desacelera\u00e7\u00e3o e para de crescer rapidamente, tendo uma leve redu\u00e7\u00e3o, enquanto o desalento continua crescendo mais lentamente, e isso alivia o contingente de pessoas com renda zero. No entanto, a <strong>desigualdade no mercado de trabalho<\/strong> continua a crescer.<\/p>\n<p>Hoje estamos na <strong>quarta fase<\/strong>, em que o desemprego para de crescer, mas a <strong>desigualdade entre os trabalhadores<\/strong> explode. O mais importante nesse cen\u00e1rio \u00e9 mostrar que os efeitos desse momento s\u00e3o conjunturais, mas para as fam\u00edlias que t\u00eam renda zero, o impacto \u00e9 duradouro.<\/p>\n<p><strong>Como podemos ler os dados do desemprego e quais s\u00e3o as consequ\u00eancias dessa situa\u00e7\u00e3o? At\u00e9 que ponto esse cen\u00e1rio de desigualdade \u00e9 apenas conjuntural e em que medida esses dados chamam aten\u00e7\u00e3o para uma situa\u00e7\u00e3o mais grave, em que gera\u00e7\u00f5es de pessoas v\u00e3o crescer neste contexto?<\/strong><\/p>\n<p>Uma das coisas que podemos pensar \u00e9 nas marcas geracionais que esse quadro pode trazer: do ponto de vista da hist\u00f3ria do pa\u00eds, essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 conjuntural, mas do ponto de vista das hist\u00f3rias de vida, isso pode virar marcas geracionais. Muitos <strong>jovens<\/strong> que est\u00e3o procurando emprego pela primeira vez, n\u00e3o encontram nada, e o <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/588590-o-recorde-do-desemprego-e-da-subutilizacao-da-forca-de-trabalho-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">desemprego<\/a> \u00e9 particularmente mais alto entre as pessoas jovens, o que \u00e9 muito grave. O <strong>primeiro emprego<\/strong> sempre foi o mais dif\u00edcil de conseguir, porque os requisitos dos empregadores s\u00e3o sempre a experi\u00eancia anterior e qualifica\u00e7\u00f5es que se obt\u00eam de outras firmas nas quais j\u00e1 se trabalhou. Como muitos jovens n\u00e3o conseguem um primeiro emprego, eles n\u00e3o alcan\u00e7am tamb\u00e9m um posto no mercado de trabalho.<\/p>\n<p>No meio da crise essa situa\u00e7\u00e3o se torna mais grave, porque as pessoas que estavam pensando em trabalhar e tamb\u00e9m estudar, n\u00e3o v\u00e3o ter a renda para investir na pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o, e isso significa que a pessoa provavelmente n\u00e3o vai voltar para a escola. \u00c9 muito raro e improv\u00e1vel retornar \u00e0 escola depois dos 30 anos. Com a <strong>redu\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito educativo<\/strong> e das <strong>pol\u00edticas de acesso ao ensino superior<\/strong>, a situa\u00e7\u00e3o se dificulta ainda mais. Dificulta do lado da fam\u00edlia, que n\u00e3o tem renda, e do lado da institui\u00e7\u00e3o de ensino, que n\u00e3o t\u00eam facilita\u00e7\u00f5es para as <strong>fam\u00edlias de baixa renda<\/strong>. Os impactos disso na vida individual s\u00e3o duradouros, assim como os impactos na vida profissional, porque a pessoa n\u00e3o conseguiu acumular experi\u00eancia nos primeiros trabalhos, logo, n\u00e3o tem uma mobilidade ocupacional t\u00e3o projetada quanto poderia ter.<\/p>\n<p>Para as crian\u00e7as que crescem nesses meios, os impactos tamb\u00e9m podem ser grandes, afinal de contas os pais n\u00e3o est\u00e3o conseguindo investir em si mesmos e tamb\u00e9m n\u00e3o conseguem prover as condi\u00e7\u00f5es de oportunidade para os filhos. Crises anteriores documentam bem este tipo de coisa: as pr\u00f3prias crian\u00e7as acabam tendo<strong> d\u00e9ficit de capital humano<\/strong> e at\u00e9 problemas emocionais. Portanto, do ponto de vista da hist\u00f3ria do pa\u00eds, a crise \u00e9 conjuntural, mas do ponto de vista individual, isso pode ter um impacto na vida de uma ou duas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/590032-80-dos-trabalhadores-brasileiros-sao-pobres-e-vivem-com-renda-de-ate-1-700-reais-e-assustadora-a-bomba-relogio-que-temos-pela-frente-entrevista-especial-com-waldir-quadros\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Alguns pesquisadores que analisaram os dados da Pnad Cont\u00ednua<\/a> de 2019 afirmam que 80% dos trabalhadores s\u00e3o classificados em alguma destas categorias: 40% est\u00e3o na camada superior dos pobres, com renda de R$ 1.700; 27% est\u00e3o na camada dos pobres, com renda de R$ 920 reais; e 13% na camada dos miser\u00e1veis, com renda de at\u00e9 R$ 310 mensais. O que esses dados indicam na sua avalia\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rog\u00e9rio Barbosa \u2014<\/strong> N\u00e3o conhe\u00e7o esses dados especificamente, mas gosto mais de analisar as varia\u00e7\u00f5es ao longo do tempo do que olhar para um dado como se fosse uma fotografia est\u00e1tica. Ent\u00e3o, me interessa saber se a <strong>pobreza<\/strong> est\u00e1 aumentando ou diminuindo, e n\u00e3o somente o n\u00famero de pobres. Essa situa\u00e7\u00e3o diz respeito ao que temos feito e quais s\u00e3o os efeitos das nossas a\u00e7\u00f5es sobre a mudan\u00e7a do quadro. O que vemos \u00e9 um <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/581771-aumenta-a-pobreza-e-a-extrema-pobreza-no-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aumento da pobreza desde 2016<\/a> e o que mais me incomoda n\u00e3o \u00e9 quantos pobres temos agora, mas o fato de que ainda estamos gerando pobres. Isso \u00e9 in\u00e9dito, porque desde o in\u00edcio dos anos 2000 n\u00e3o t\u00ednhamos um quadro de aumento do n\u00famero de pobres. Esse cen\u00e1rio \u00e9 pior do que o da <strong>desigualdade<\/strong>, porque os impactos da desigualdade s\u00e3o de m\u00e9dio e longo prazo e os efeitos da pobreza s\u00e3o imediatos: s\u00e3o pessoas que n\u00e3o conseguem ter acesso a bens b\u00e1sicos como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m a bens jur\u00eddicos. Os pobres acabam acumulando uma s\u00e9rie de camadas de desvantagens: s\u00e3o pessoas para as quais as informa\u00e7\u00f5es chegam de forma incompleta ou nem chegam, como, por exemplo, onde procurar emprego, onde procurar acesso \u00e0 justi\u00e7a etc. A produ\u00e7\u00e3o de desvantagens dessa maneira \u00e9 muito grave.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o conhe\u00e7o precisamente esses dados que voc\u00ea menciona, mas existem v\u00e1rias formas de operacionalizarmos a <strong>pobreza<\/strong>: podemos pensar em meio sal\u00e1rio m\u00ednimo per capita, um quarto de <strong>sal\u00e1rio m\u00ednimo<\/strong> per capita, ou seja, as defini\u00e7\u00f5es podem variar, mas quase todas est\u00e3o apresentando uma tend\u00eancia de aumento da pobreza e isso significa que alguma coisa deixou de ser feita ou parou de ser efetiva.<\/p>\n<p><strong>Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 importante pensar que a <strong>crise do mercado de trabalho<\/strong> e o<strong> aumento da desigualdade de renda do trabalho<\/strong> s\u00e3o um fen\u00f4meno que deve ser olhado de forma espec\u00edfica, com investimentos e tentativas de solu\u00e7\u00e3o voltados para o mercado de trabalho: os postos est\u00e3o fechados ou abrindo pouco e isso n\u00e3o tem a ver com reforma da Previd\u00eancia. N\u00e3o estou dizendo que a reforma n\u00e3o \u00e9 importante, mas, como disse anteriormente, assim como a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o resolve o problema da desigualdade no curto prazo e n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para tudo, a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/159-noticias\/entrevistas\/588411-reforma-tributaria-como-alternativa-a-reforma-da-previdencia-entrevista-especial-com-eduardo-fagnani\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">reforma da Previd\u00eancia<\/a> tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9. Ainda que venha a ocorrer uma economia nos cofres p\u00fablicos, isso s\u00f3 ter\u00e1 impacto no m\u00e9dio ou longo prazo. Alguma coisa precisa ser feita no mercado de trabalho hoje, e isso tem a ver com a gera\u00e7\u00e3o de postos de trabalho no mercado formal e gera\u00e7\u00e3o de crescimento econ\u00f4mico no curto prazo. A reforma n\u00e3o ir\u00e1 incidir sobre o crescimento no curto prazo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Fonte: Rede Brasil Atual<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IHU \u2013 A inclus\u00e3o de novos dados na an\u00e1lise sobre as causas da desigualdade e, em particular, da desigualdade de renda do trabalho, permite uma vis\u00e3o abrangente e mais complexa do fen\u00f4meno e contesta antigas teorias, como aquela amplamente difundida no Brasil, de que a desigualdade de renda do trabalho \u00e9 explicada pelo n\u00edvel de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6995,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-6996","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6996","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6996"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6996\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6995"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6996"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6996"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6996"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}