{"id":5767,"date":"2018-12-14T14:42:47","date_gmt":"2018-12-14T16:42:47","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/apos-50-anos-do-ai-5-toda-a-nacao-esta-sob-ameaca\/"},"modified":"2018-12-14T14:42:47","modified_gmt":"2018-12-14T16:42:47","slug":"apos-50-anos-do-ai-5-toda-a-nacao-esta-sob-ameaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/apos-50-anos-do-ai-5-toda-a-nacao-esta-sob-ameaca\/","title":{"rendered":"Ap\u00f3s 50 anos do AI-5, &#8216;toda a na\u00e7\u00e3o est\u00e1 sob amea\u00e7a&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 50 anos, o regime ditatorial civil-militar, que alcan\u00e7ara o poder por meio de um golpe quatro anos antes, em 1964, dava seu passo mais sombrio com o Ato Institucional N\u00famero Cinco, o <strong>AI-5<\/strong>. Naquele 13 de dezembro, a for\u00e7a da ditadura fechou o Congresso, cassou parlamentares, demitiu funcion\u00e1rios p\u00fablicos, suspendeu <em>habeas corpus<\/em> e quaisquer garantias constitucionais. O resultado foi a institucionaliza\u00e7\u00e3o da tortura e da censura no pa\u00eds.<\/p>\n<p>A data foi lembrada com um grande ato na Faculdade de Direito da USP, no Largo S\u00e3o Francisco, em S\u00e3o Paulo. Lideran\u00e7as, artistas, intelectuais e ministros de todos os governos ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o assinaram o <a class=\"internal-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/cidadania\/2018\/12\/em-sao-paulo-ato-pela-democracia-relembra-e-alerta-pelos-50-anos-do-ai-5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Manifesto em Defesa da Democracia<\/a>. O que era para ser uma noite de respeito e mem\u00f3ria acabou se tornando em um ato de resist\u00eancia. Isso porque aqueles que usaram do microfone, foram un\u00e2nimes em alertar para os perigos que rondam novamente o Brasil.<\/p>\n<p>Perigos que ascenderam com a extrema-direita e resultaram na elei\u00e7\u00e3o de Jair <strong>Bolsonaro<\/strong> que, abertamente, defende a ditadura e a tortura. \u201cEstamos aqui porque sentimos que o Brasil est\u00e1 sob amea\u00e7a\u201d, declarou o economista Luiz Carlos Bresser-Pereira, que foi ministro durante os governos de Jos\u00e9 Sarney e Fernando Henrique Cardoso. \u201cBrasileiros est\u00e3o sob amea\u00e7a. A <strong>democracia<\/strong> est\u00e1 sob amea\u00e7a. Os <strong>direitos humanos<\/strong>, o <strong>meio ambiente<\/strong>, as mulheres, os homossexuais, os <strong>negros<\/strong>. Toda a na\u00e7\u00e3o est\u00e1 sob amea\u00e7a\u201d, completou.<\/p>\n<p>\u201cEstamos vendo isso claramente e contra isso nos levantamos. Estamos firmes, juntos, em favor da democracia e da na\u00e7\u00e3o\u201d, disse. Para o economista, o pa\u00eds chega a este ponto como parte de uma conjuntura internacional. \u201cH\u00e1 40 anos, o mundo deu a virada do neoliberalismo. Uma ideologia absolutamente violenta, antissocial e autorit\u00e1ria que pretendeu reformar o mundo a partir da ideia de competi\u00e7\u00e3o. Ignoraram a solidariedade, o trabalho comum e o aux\u00edlio m\u00fatuo. Aqui vimos, de repente, o \u00f3dio.\u201d<\/p>\n<p>Neste ponto, Bresser-Pereira se alinha com o discurso de uni\u00e3o, que comandou o evento. Com iniciativas como essa, cresce a ideia da forma\u00e7\u00e3o de uma alian\u00e7a democr\u00e1tica formada por indiv\u00edduos com diferentes ideologias, mas que n\u00e3o desejam perder a liberdade e seus direitos civis, sociais, pol\u00edticos e ambientais. O professor de ci\u00eancia pol\u00edtica da USP Andr\u00e9 Singer falou sobre o tema. \u201cAcho que este \u00e9 um passo de unidade\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cEssa \u00e9 a primeira grande resposta depois dessa dif\u00edcil elei\u00e7\u00e3o que amea\u00e7a a democracia. Esse \u00e9 o primeiro passo de uma luta que ser\u00e1 longa. Devemos juntar todos os que s\u00e3o a favor da democracia sem pedir atestado para ningu\u00e9m, acolhendo com toda a generosidade. Essa ser\u00e1 a \u00fanica forma de construir uma nova maioria que vai garantir a perman\u00eancia da democracia no Brasil e os avan\u00e7os sociais que tanto precisamos\u201d, completou.<\/p>\n<p>Para o ex-chanceler Celso Amorim, a unidade \u00e9 a resposta necess\u00e1ria para o momento hist\u00f3rico. \u201cTemos pela frente um desafio complexo. A frente ampla \u00e9 a sa\u00edda. N\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil, h\u00e1 sutilezas. Os advers\u00e1rios ganharam as elei\u00e7\u00f5es. Entre outras coisas, perdemos o discurso racional na direita e na esquerda. Isso foi trocado por pin\u00e7adas emocionais que apelam para o medo e o \u00f3dio. A luta \u00e9 para retomar a racionalidade.\u201d<\/p>\n<h3>O terror<\/h3>\n<p>O ato foi comandado pela jornalista Eleonora de Lucena, que abriu a noite classificando o AI-5 como \u201cum regime de terror de Estado\u201d. Sobre esse terror, falou a tamb\u00e9m jornalista Rose Nogueira, que foi presa pol\u00edtica ap\u00f3s o aprofundamento da ditadura, ou o golpe dentro do golpe, como alguns comentavam. \u201cFico grata de estar aqui hoje. Quem passou por pris\u00e3o pol\u00edtica se questionou se chegaria at\u00e9 aqui\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cNo dia 13 de dezembro de 1968, eu era uma jovem rep\u00f3rter na Folha da Tarde. No dia eu preparava uma mat\u00e9ria sobre o significado deste dia para os cat\u00f3licos. \u00c9 o dia de Santa Luzia, dia dos olhos, dia da luz. Fiquei sabendo do ato e fui para a reda\u00e7\u00e3o. L\u00e1, tinha uma mesa nova com um homem de cabe\u00e7a baixa. O dia foi de desespero, era o censor. A partir dali, come\u00e7amos com as receitas de bolo. Passamos anos com censura pr\u00e9via\u201d, disse.<\/p>\n<p>O pior, entretanto, viria um ano depois. \u201cEm 1969 fui presa junto de outros companheiros do jornal. Eu tinha um beb\u00ea de um m\u00eas. Digo para quem pede por ditadura ou diz que a tortura n\u00e3o existiu, que eu carrego uma sequela perp\u00e9tua. Depois daquilo nunca mais pude ter filhos. Me deram uma inje\u00e7\u00e3o para que eu parasse de dar leite, porque isso atrapalhava o desejo de um tarado torturador. Conto isso para que n\u00e3o se repita. Espero que nunca mais ningu\u00e9m sofra com nada disso no Brasil\u201d, disse.<\/p>\n<p>Ao concluir, Rose deixou o alerta de que \u201ca resist\u00eancia \u00e0 tirania \u00e9 um direito do homem. Vamos exercer em um tempo pr\u00f3ximo\u201d. E foi sobre a luta que falou tamb\u00e9m Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura. \u201cMeu pai morre em 1975. Quando aconteceu o AI-5, meu pai estava para voltar da Europa, ele trabalhava na BBC. Amigos disseram para que n\u00e3o voltasse, que era perigoso. Ele disse, ent\u00e3o, que era mais um motivo para ele estar aqui.\u201d<\/p>\n<h3>Marcas<\/h3>\n<p>Para a psicanalista Maria Rita Kehl, que trabalhou na Comiss\u00e3o da Verdade, a ditadura foi um assunto n\u00e3o resolvido, que agora assombra novamente o Brasil. \u201cFomos o \u00fanico pa\u00eds a aceitar a anistia para os dois lados. Foi um gol de m\u00e3o que a sociedade fez, como o fim da escravid\u00e3o sem repara\u00e7\u00e3o. O Brasil sempre ajeita as coisas. Entendo que as pessoas aceitaram esse acordo, mas tivemos consequ\u00eancias muito graves.\u201d<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia foi, para a psicanalista, \u201ca cren\u00e7a de que, durante a ditadura, haviam dois lados em luta e que ambos cometeram crimes. N\u00e3o eram dois lados em uma luta dessa maneira simples. Era um lado que era o Estado, que deveria proteger o cidad\u00e3o, mesmo sob cust\u00f3dia, respeitando os seus direitos. Do outro, pessoas lutando contra um regime ileg\u00edtimo e autorit\u00e1rio. Em termos de v\u00edtimas, houve mortes causadas por militantes, mas n\u00e3o chega aos p\u00e9s dos crimes de lesa humanidade cometidos pelo Estado\u201d, concluiu.<\/p>\n<p>Na seara das marcas da ditadura, a secret\u00e1ria de Direitos Humanos da CUT, Jandira Uehara, confirma a teoria de que \u201co Brasil tem uma trajet\u00f3ria marcada pela viol\u00eancia e pelo autoritarismo. O AI-5 foi a maior agress\u00e3o cometida pelo regime militar. At\u00e9 hoje esse ato contamina. At\u00e9 hoje, o sistema de Justi\u00e7a e de seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 baseado na l\u00f3gica da elimina\u00e7\u00e3o dos inimigos escolhidos. N\u00e3o por acaso, as academias militares seguem a mesma doutrina da ditadura. N\u00e3o por acaso, a cultura do exterm\u00ednio levou ao assassinato de ativistas como Marielle, Mestre M\u00f4a, entre tantas outras vidas ceifadas. N\u00e3o por acaso o ex\u00e9rcito foi convocado para reprimir manifesta\u00e7\u00f5es contra antirreformas do Temer. N\u00e3o por acaso Lula \u00e9 um preso pol\u00edtico.\u201d<\/p>\n<p>A presidenta da UNE, Marianna Dias, tamb\u00e9m lembrou da pris\u00e3o do ex-presidente Lula e inseriu no mesmo contexto. \u201cO AI-5 matou, torturou, jovens. Principalmente artistas, jornalistas e, 50 anos depois, vimos a pris\u00e3o pol\u00edtica de Lula. Presenciamos a UNE ser processada pelo presidente eleito por crime eleitoral por faixas contra o fascismo. Vemos invas\u00f5es de universidades p\u00fablicas pela Justi\u00e7a Eleitoral proibindo assembleias e faixas. Vemos a promessa do futuro presidente de exterminar os vermelhos, de perseguir militantes. Vemos ele dizer que a tortura \u00e9 cab\u00edvel. Precisamos refletir que a ditadura n\u00e3o tem receita pronta nem data de inaugura\u00e7\u00e3o. Ela vai acontecendo. N\u00f3s precisamos selar um pacto geracional pela mem\u00f3ria dos que morreram pela liberta\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds.\u201d<\/p>\n<p>O risco de regimes totalit\u00e1rios, que \u201cv\u00e3o acontecendo\u201d, tamb\u00e9m motivaram o discurso da jornalista Marina Person. \u201cEstar aqui, mais de 30 anos depois das diretas, reafirmando a necessidade que temos de n\u00e3o perder a liberdade que foi duramente conquistada&#8230; \u00e9 um pouco de espanto&#8230; reafirmando valores que achei que nunca mais precisaria lutar. Depois dessa elei\u00e7\u00e3o muito penosa, depois do resultado, nossa \u00fanica mensagem \u00e9 essa\u201d, concluiu.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Fonte: Rede Brasil Atual<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 50 anos, o regime ditatorial civil-militar, que alcan\u00e7ara o poder por meio de um golpe quatro anos antes, em 1964, dava seu passo mais sombrio com o Ato Institucional N\u00famero Cinco, o AI-5. Naquele 13 de dezembro, a for\u00e7a da ditadura fechou o Congresso, cassou parlamentares, demitiu funcion\u00e1rios p\u00fablicos, suspendeu habeas corpus e quaisquer [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5766,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-5767","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5767","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5767"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5767\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5766"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5767"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5767"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5767"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}