{"id":5345,"date":"2018-10-02T14:14:34","date_gmt":"2018-10-02T17:14:34","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/atestado-de-obito-para-o-livre-comercio\/"},"modified":"2018-10-02T14:14:34","modified_gmt":"2018-10-02T17:14:34","slug":"atestado-de-obito-para-o-livre-comercio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/atestado-de-obito-para-o-livre-comercio\/","title":{"rendered":"Atestado de \u00f3bito para o livre com\u00e9rcio"},"content":{"rendered":"<p>O relat\u00f3rio sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento divulgado na semana passada pela Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento (Unctad, na sigla em ingl\u00eas) \u00e9 como um atestado de fracasso da\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/revista\/994\/raizes-do-protecionismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">proposta do livre com\u00e9rcio<\/a>\u00a0e um xeque-mate das virtudes propagadas pelos seus defensores, economistas ortodoxos e empres\u00e1rios \u00e0 frente.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O documento repete o diagn\u00f3stico de emperramento da economia mundial divulgado uma semana antes tamb\u00e9m pela Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) com dose dupla de m\u00e1s not\u00edcias, o rebaixamento da previs\u00e3o de crescimento do Brasil neste ano e o alerta de que a expans\u00e3o econ\u00f4mica global parece ter atingido seu pico com intensifica\u00e7\u00e3o dos riscos dada a escalada protecionista, o aperto financeiro nos pa\u00edses emergentes e riscos pol\u00edticos generalizados.<\/p>\n<div id=\"sc-ava-90626135\">\u00a0<\/div>\n<div id=\"sc_smartAva\" class=\"fixed_intext_sc_v1\" data-smartplay-instance-id=\"0\">\u00a0<\/div>\n<p dir=\"ltr\">A conclus\u00e3o principal do estudo da Unctad, com o t\u00edtulo sugestivo \u201cPoder, plataformas e a desilus\u00e3o com o livre com\u00e9rcio\u201d, \u00e9 que as grandes empresas aumentaram continuamente sua fatia nas exporta\u00e7\u00f5es totais e agora dominam o com\u00e9rcio internacional. \u201cIronicamente, essa tend\u00eancia intensificou-se desde a crise financeira global de 2008, o que p\u00f5e em destaque o poder de mercado desproporcional de poucos e os ganhos desmesurados apropriados pelo topo da pir\u00e2mide\u201d.<\/p>\n<p>O dom\u00ednio crescente do com\u00e9rcio por grandes empresas desde meados da d\u00e9cada de 1990 \u00e9 uma das caracter\u00edsticas centrais da economia mundial contempor\u00e2nea, segundo os economistas da Unctad. Entre as firmas exportadoras, o 1% do topo respondeu, em m\u00e9dia, por 6 de cada 10 d\u00f3lares de exporta\u00e7\u00e3o. Em algumas estimativas, apenas 10 empresas, em m\u00e9dia, respondem por 4 de cada 10 d\u00f3lares ganhos no exterior.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A pesquisa da Unctad mostra tamb\u00e9m que, tanto para os pa\u00edses desenvolvidos quanto para aqueles em desenvolvimento, a integra\u00e7\u00e3o nas cadeias globais de valor est\u00e1 relacionada ao decl\u00ednio da participa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica de valor adicionado por parte de cada pa\u00eds nas suas pr\u00f3prias exporta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Segundo o organismo, o com\u00e9rcio sob hiperglobaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiu promover mudan\u00e7as estruturais amplas em pa\u00edses em desenvolvimento e contribuiu para o aumento da desigualdade mundial. O relat\u00f3rio mostra que o aumento na lucratividade das principais corpora\u00e7\u00f5es transnacionais, junto \u00e0 sua crescente concentra\u00e7\u00e3o, agiram como uma for\u00e7a importante de compress\u00e3o da parcela da renda do trabalho no produto global e exacerbaram assim a desigualdade de renda.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Para o secret\u00e1rio-geral da Unctad, Mukhisa Kituyi, \u201ca ansiedade crescente nos pa\u00edses desenvolvidos, atingidos tamb\u00e9m pelos danos da\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/revista\/980\/o-neoliberalismo-e-sua-falha-fatal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">hiperglobaliza\u00e7\u00e3o<\/a>, leva-os a cada vez mais a questionar a vers\u00e3o oficial sobre os benef\u00edcios compartilhados decorrentes do livre com\u00e9rcio\u201d. Essas preocupa\u00e7\u00f5es somam&#8211;se \u00e0 apreens\u00e3o crescente entre os pa\u00edses em desenvolvimento sobre a propalada efic\u00e1cia do funcionamento do sistema de com\u00e9rcio internacional, em especial quanto aos supostos benef\u00edcios para essas economias.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O relat\u00f3rio constata que o r\u00e1pido crescimento das exporta\u00e7\u00f5es das economias de industrializa\u00e7\u00e3o mais recente na \u00c1sia, em especial daquelas da China, est\u00e1 associado \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da fatia dos pa\u00edses desenvolvidos nas exporta\u00e7\u00f5es mundiais, de tr\u00eas quartos do total em 1986 para apenas metade em 2016. Durante esse per\u00edodo, na maior parte dos outros pa\u00edses em desenvolvimento a parcela das exporta\u00e7\u00f5es manteve-se constante ou em alguns casos at\u00e9 declinou, exceto durante a fase de eleva\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria do super-ciclo de altos pre\u00e7os das commodities.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Excluindo a China, a participa\u00e7\u00e3o de R\u00fassia, \u00cdndia, Brasil e \u00c1frica do Sul na produ\u00e7\u00e3o global subiu de 3,7% em 1990 para cerca de 7,4% em 2016. Em contraste, quando a China \u00e9 adicionada, a participa\u00e7\u00e3o dos BRICS aumenta de 5,4% para 22,2% durante esse per\u00edodo.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A disparidade \u00e9 ainda maior no que se refere \u00e0 ind\u00fastria. Em 2016, o Leste Asi\u00e1tico foi respons\u00e1vel por 7 de cada 10 d\u00f3lares ganhos pelo mundo em desenvolvimento a partir das exporta\u00e7\u00f5es de manufaturados. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Desde 1995, apenas as economias em desenvolvimento do Leste Asi\u00e1tico abrigam, em grau significativo, matrizes de v\u00e1rias das principais corpora\u00e7\u00f5es transnacionais, registrando uma parcela crescente dos lucros gerados pelas duas mil maiores corpora\u00e7\u00f5es multinacionais do mundo, de 7% em 1995 para mais de 26% em 2015.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201c\u00c0 medida que mais pa\u00edses em desenvolvimento passaram a depender dos mercados globais, tornaram-se mais dependentes de uma faixa restrita de exporta\u00e7\u00f5es\u201d, alerta o documento, que associa essa situa\u00e7\u00e3o \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o de cadeias de valor globais e \u00e0s dificuldades de \u201csubir a escada do desenvolvimento na aus\u00eancia de um estado desenvolvimentista forte\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Essas cadeias, prosseguem os autores do estudo, t\u00eam sido uma caracter\u00edstica de longa data do com\u00e9rcio de commodities e n\u00e3o \u00e9 surpresa que, desde 1995, 18 dos 27 pa\u00edses em desenvolvimento analisados tenham experimentado aumentos na participa\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias extrativas no valor agregado das exporta\u00e7\u00f5es, no conhecido fen\u00f4meno da reprimariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">As perspectivas a partir do levantamento da Unctad s\u00e3o desalentadoras. \u201cNesse mundo de &#8220;o ganhador leva tudo&#8221;, n\u00e3o surpreende que novos participantes e exportadores menores tenham uma taxa de sobreviv\u00eancia baixa, com tr\u00eas de quatro empresas abandonando o neg\u00f3cio de exporta\u00e7\u00e3o depois de dois anos e com as empresas em pa\u00edses em desenvolvimento em situa\u00e7\u00e3o pior do que as dos pa\u00edses desenvolvidos.\u201d<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O agravamento da desigualdade relacionada ao com\u00e9rcio, prosseguem os analistas, reflete uma combina\u00e7\u00e3o de eleva\u00e7\u00e3o dos lucros dos ativos intang\u00edveis, maiores rendimentos abocanhados pela matriz e redu\u00e7\u00e3o dos custos de produ\u00e7\u00e3o. Um quadro de doen\u00e7a grave da economia mundial, concluem os autores do relat\u00f3rio, da qual as guerras comerciais s\u00e3o s\u00f3 um sintoma.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O retrato devastador tra\u00e7ado pela Unctad alimenta expectativas quanto a uma eventual manifesta\u00e7\u00e3o do\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/economia\/a-ma-influencia-do-banco-mundial-na-politica-economica-brasileira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Banco Mundial<\/a>, a institui\u00e7\u00e3o que contribuiu, mais do que qualquer outra, para o aumento das condi\u00e7\u00f5es de liberaliza\u00e7\u00e3o comercial e, como sublinha o economista Robert Wade, \u201ctratou-a como a rainha das pol\u00edticas, n\u00e3o apenas uma entre v\u00e1rias, dizendo que a pol\u00edtica de livre com\u00e9rcio limitaria os danos das interven\u00e7\u00f5es governamentais no mercado\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u00a0<\/p>\n<p dir=\"ltr\"><strong>Fonte: Carta Capital<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O relat\u00f3rio sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento divulgado na semana passada pela Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Com\u00e9rcio e Desenvolvimento (Unctad, na sigla em ingl\u00eas) \u00e9 como um atestado de fracasso da\u00a0proposta do livre com\u00e9rcio\u00a0e um xeque-mate das virtudes propagadas pelos seus defensores, economistas ortodoxos e empres\u00e1rios \u00e0 frente. 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