{"id":4343,"date":"2018-05-10T12:54:43","date_gmt":"2018-05-10T15:54:43","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/para-professor-a-historia-nunca-se-repete-mas-ha-semelhancas-entre-1964-e-2016\/"},"modified":"2018-05-10T12:54:43","modified_gmt":"2018-05-10T15:54:43","slug":"para-professor-a-historia-nunca-se-repete-mas-ha-semelhancas-entre-1964-e-2016","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/para-professor-a-historia-nunca-se-repete-mas-ha-semelhancas-entre-1964-e-2016\/","title":{"rendered":"Para professor, a hist\u00f3ria nunca se repete, mas h\u00e1 semelhan\u00e7as entre 1964 e 2016"},"content":{"rendered":"<div>\n<p><a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/revista\/1002\/a-historia-nunca-se-repete-mas-ha-semelhancas-entre-1964-e-2016?utm_campaign=newsletter_rd_-_09052018&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">CartaCapital<\/a> \u2013 Na c\u00e9lebre obra <em>O 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte<\/em>, Karl Marx observa que os grandes acontecimentos hist\u00f3ricos costumam ocorrer duas vezes, a primeira vez como trag\u00e9dia, a segunda como farsa. Ao menos em parte, o historiador Luiz Antonio Dias, professor da PUC de S\u00e3o Paulo, confia na validade do vatic\u00ednio, embora considere certas farsas piores do que as trag\u00e9dias originais.<\/p>\n<p>Em 2013, durante uma entrevista a CartaCapital, Dias apresentou em primeira m\u00e3o os resultados de um desmitificador estudo sobre o per\u00edodo pr\u00e9-1964. Com base em pesquisas feitas pelo Ibope \u00e0s v\u00e9speras do golpe, mas n\u00e3o divulgadas \u00e0 \u00e9poca, demonstrou que o presidente deposto Jo\u00e3o Goulart n\u00e3o apenas tinha amplo apoio popular como grandes chances de vencer caso disputasse as elei\u00e7\u00f5es presidenciais previstas para 1965. A vers\u00e3o consagrada pela m\u00eddia, de um l\u00edder fraco e divorciado da opini\u00e3o p\u00fablica, n\u00e3o parava em p\u00e9.<\/p>\n<p>Para o historiador, n\u00e3o h\u00e1 como ignorar as semelhan\u00e7as com a atual conjuntura. Ap\u00f3s o impeachment de Dilma Rousseff, baseado no pretexto das \u201cpedaladas fiscais\u201d, o favorito nas elei\u00e7\u00f5es deste ano est\u00e1 impedido de concorrer. Mesmo preso, condenado sem provas, Lula segue na lideran\u00e7a das inten\u00e7\u00f5es de voto e bate qualquer advers\u00e1rio no segundo turno.<\/p>\n<p>Se em 1964 n\u00e3o havia como esconder a natureza do golpe, em 2016 a m\u00eddia tratou de lhe conferir um verniz de legalidade. Dias acredita, por\u00e9m, que a narrativa farsesca est\u00e1 em xeque e uma das provas seria a manuten\u00e7\u00e3o do capital eleitoral de Lula, mesmo ap\u00f3s toda a ofensiva judicial e midi\u00e1tica contra o petista. \u201cPor isso o inc\u00f4modo com os cursos sobre o golpe que pipocaram em todo o Pa\u00eds e no exterior\u201d, emenda o historiador, que participou da cria\u00e7\u00e3o de um desses programas na Faculdade de Ci\u00eancias Sociais da PUC.<\/p>\n<h3>Por que a historiografia consagrou por tanto tempo a vis\u00e3o de Jango como um presidente sem apoio popular?<\/h3>\n<p>Dois fatores ajudam a explicar. Em primeiro lugar, essas pesquisas pr\u00e9-1964 n\u00e3o foram divulgadas \u00e0 \u00e9poca. Permaneceram desconhecidas at\u00e9 o Ibope do\u00e1-las, em 2003, para o Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp. Anos depois, ao me debru\u00e7ar sobre os documentos, verifiquei que Jango tinha elevados \u00edndices de aprova\u00e7\u00e3o e grandes chances de vencer as elei\u00e7\u00f5es presidenciais previstas para 1965. Havia uma d\u00favida se ele poderia ou n\u00e3o se candidatar. A reelei\u00e7\u00e3o era vetada, mas ele n\u00e3o havia sido eleito presidente, e sim vice de J\u00e2nio Quadros. Sem as pesquisas, prevaleceu a vis\u00e3o da m\u00eddia. \u00c0 exce\u00e7\u00e3o do \u00daltima Hora de Samuel Wainer, todos os jornais de express\u00e3o nacional apoiaram o golpe.<\/p>\n<h3>Que vis\u00e3o era essa?<\/h3>\n<p>A m\u00eddia apresentava Jango como um l\u00edder fraco e sem base popular. De fato, ele n\u00e3o tinha a mesma habilidade de Get\u00falio Vargas, seu padrinho pol\u00edtico, e chegou ao poder pelas circunst\u00e2ncias do per\u00edodo. J\u00e2nio Quadros elegeu-se presidente em coliga\u00e7\u00e3o liderada pela UDN, ao passo que Goulart venceu a disputa para vice pelo PTB. Eram partidos rivais. Ap\u00f3s a ren\u00fancia de Quadros, tornou-se ref\u00e9m daqueles que impuseram um regime parlamentarista.<\/p>\n<p>As pesquisas do Ibope desmontam, por\u00e9m, a tese de que era impopular. Uma das sondagens, contratada pela Federa\u00e7\u00e3o do Com\u00e9rcio de S\u00e3o Paulo, consultou 500 eleitores na capital paulista de 20 a 30 de mar\u00e7o de 1964. Jango era aprovado por 72% dos entrevistados. Um levantamento nacional, sem indica\u00e7\u00e3o do contratante e realizado entre 9 e 26 de mar\u00e7o, demonstrou forte anu\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o a medidas de seu governo. Nas oito capitais pesquisadas (3,4 mil entrevistas), a maioria considerava necess\u00e1ria a reforma agr\u00e1ria. O apoio variava de 61%, em Curitiba, a 82% no Rio de Janeiro.<\/p>\n<h3>Por que essas pesquisas demoraram tanto para vir a p\u00fablico?<\/h3>\n<p>Algumas delas talvez n\u00e3o tenham sido divulgadas \u00e0 \u00e9poca por falta de tempo para tabular os resultados. O golpe ocorreu dias ap\u00f3s o trabalho de campo. Sou tentado a acreditar, contudo, que levaram quatro d\u00e9cadas para vir a p\u00fablico por contrariar interesses dos contratantes e da m\u00eddia. Entrei em contato com representantes da Fecom\u00e9rcio, mas eles disseram n\u00e3o guardar documentos do per\u00edodo.<\/p>\n<h3>Em que medida o componente eleitoral contribuiu para o golpe?<\/h3>\n<p>O golpe \u00e9 o resultado de um processo iniciado em 1961, quando a direita n\u00e3o aceitou a posse de Jango. No ano seguinte, houve forte articula\u00e7\u00e3o para viabilizar candidaturas de oposi\u00e7\u00e3o ao governo Goulart nas elei\u00e7\u00f5es legislativas, inclusive com financiamento estrangeiro, fato denunciado pelo ent\u00e3o deputado Pl\u00ednio de Arruda Sampaio. Em 1963, por meio de plebiscito, Jango conseguiu derrubar o regime parlamentarista que lhe foi imposto como condi\u00e7\u00e3o para assumir o governo. Surgem, ent\u00e3o, as articula\u00e7\u00f5es pelo seu impeachment. No horizonte, despontava a amea\u00e7a de Jango disputar e vencer as elei\u00e7\u00f5es de 1965. Os militares entram nesse momento.<\/p>\n<h3>Jango tinha chances de vencer o pleito?<\/h3>\n<p>Era o favorito. Naquele mesmo levantamento nacional do Ibope, Juscelino Kubitschek figurava na lideran\u00e7a da corrida presidencial apenas quando Goulart n\u00e3o era listado como candidato. Quando se abria essa possibilidade, o cen\u00e1rio era outro. Das oito capitais percorridas pelo Ibope em mar\u00e7o de 1964, Jango s\u00f3 tinha um porcentual de inten\u00e7\u00f5es de voto inferior ao de JK em Fortaleza e Belo Horizonte. Em todas as outras, liderava.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"image-inline lazyloaded\" title=\"\" src=\"http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/politica\/2018\/05\/para-historiador-a-historia-nunca-se-repete-mas-ha-semelhancas-entre-1964-e-2016\/Pesquisaeleitoral64.jpg\/@@images\/70642ac8-abff-4ccd-a220-1f5f238444e2.jpeg\" alt=\"\" data-src=\"http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/politica\/2018\/05\/para-historiador-a-historia-nunca-se-repete-mas-ha-semelhancas-entre-1964-e-2016\/Pesquisaeleitoral64.jpg\/@@images\/70642ac8-abff-4ccd-a220-1f5f238444e2.jpeg\" \/><\/p>\n<h3>O senhor v\u00ea semelhan\u00e7as entre esse per\u00edodo e o atual?<\/h3>\n<p>A hist\u00f3ria nunca se repete, ao menos n\u00e3o tal e qual foi no passado. H\u00e1, por\u00e9m, semelhan\u00e7as entre os dois golpes. Ainda em 2014, houve forte articula\u00e7\u00e3o da elite com de setores da m\u00eddia para evitar a reelei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff. Uma semana antes da vota\u00e7\u00e3o no segundo turno, a revista Veja estampou Lula e Dilma na sua capa associados ao esc\u00e2ndalo da Petrobras. \u201cEles sabiam de tudo\u201d, dizia a manchete. Era uma informa\u00e7\u00e3o falsa, logo contestada. Uma vez reeleita, Dilma perdeu o controle de sua base. O Congresso atuou para desestabilizar seu governo, at\u00e9 aprovar um impeachment sem base legal, inspirado no pretexto das \u201cpedaladas fiscais\u201d.<\/p>\n<p>Com a exce\u00e7\u00e3o de CartaCapital, a m\u00eddia tradicional apoiou o golpe, e depois atuou para legitimar os processos contra Lula. O ex-presidente era o favorito nas elei\u00e7\u00f5es deste ano. Para os promotores do golpe, n\u00e3o faria sentido todo o esfor\u00e7o para destituir Dilma se o PT voltasse ao poder. Ao menos em parte, os governos petistas retardaram o avan\u00e7o da agenda neoliberal, al\u00e9m de promoverem a inclus\u00e3o de uma parcela da sociedade com suas pol\u00edticas redistributivas.<\/p>\n<h3>O vatic\u00ednio de Marx sobre a repeti\u00e7\u00e3o de eventos hist\u00f3ricos tem validade na atual conjuntura?<\/h3>\n<p>Talvez, mas \u00e0s vezes a farsa \u00e9 pior do que a trag\u00e9dia. Em 1964, n\u00e3o dava para camuflar a natureza do golpe. Os militares tomaram o poder e institu\u00edram, com o apoio de setores da sociedade civil, uma ditadura que perdurou 21 anos. Hoje, h\u00e1 um esfor\u00e7o para conferir um verniz de legalidade ao golpe.<\/p>\n<p>Recentemente, Otavio Frias Filho, diretor de reda\u00e7\u00e3o da Folha de S.Paulo, publicou um curioso texto para criticar os cursos universit\u00e1rios sobre o golpe de 2016 e defender a licitude do impeachment. Ele reconhece que os antecessores de Dilma tamb\u00e9m praticaram pedaladas, mas diz que as dela \u201cforam em escala ao menos dez vezes maior\u201d (nota da reda\u00e7\u00e3o: na verdade, Dilma atuou com excessivo rigor fiscal, como demonstrou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo em depoimento no Congresso. Para Belluzzo, foi o oposto: uma \u201cdespedalada\u201d).<\/p>\n<p>At\u00e9 onde eu saiba, n\u00e3o importa se voc\u00ea rouba um banco ou um rel\u00f3gio, o crime \u00e9 o mesmo. Devo estar errado (risos). A quest\u00e3o \u00e9 que a narrativa do golpe est\u00e1 avan\u00e7ando mais rapidamente e de forma mais intensa, por isso o inc\u00f4modo com os cursos sobre o golpe que pipocaram em todo o Pa\u00eds e no exterior.<\/p>\n<h3>A manuten\u00e7\u00e3o do capital eleitoral de Lula \u00e9 um sintoma disso?<\/h3>\n<p>Sem d\u00favida. Em janeiro, Lula figurava com 37% das inten\u00e7\u00f5es de voto no Datafolha. Em abril, ap\u00f3s a sua pris\u00e3o, seguia na lideran\u00e7a com 31%. Como a margem de erro das duas pesquisas \u00e9 de dois pontos porcentuais, a oscila\u00e7\u00e3o foi pequena. No segundo turno, o ex-presidente continua a bater qualquer advers\u00e1rio. A Folha de S.Paulo preferiu, por\u00e9m, estampar na manchete: \u201cPreso, Lula perde votos; sem ele, Marina sobe e alcan\u00e7a Bolsonaro\u201d. Percebe a jogada? \u00c9 preciso limar o petista, mas tamb\u00e9m o Bolsonaro, um direitista radical que tamb\u00e9m n\u00e3o contempla os anseios da elite.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"image-inline lazyloaded\" title=\"Pesquisa eleitoral 2018\" src=\"http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/politica\/2018\/05\/para-historiador-a-historia-nunca-se-repete-mas-ha-semelhancas-entre-1964-e-2016\/Pesquisaeleitoral2018.jpg\/@@images\/1cad37d4-8ea9-4728-ba47-9ec1a201e735.jpeg\" alt=\"Pesquisa eleitoral 2018\" data-src=\"http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/politica\/2018\/05\/para-historiador-a-historia-nunca-se-repete-mas-ha-semelhancas-entre-1964-e-2016\/Pesquisaeleitoral2018.jpg\/@@images\/1cad37d4-8ea9-4728-ba47-9ec1a201e735.jpeg\" \/><\/p>\n<h3>Alguma aposta sobre o resultado das elei\u00e7\u00f5es?<\/h3>\n<p>Tenho dificuldade de lan\u00e7ar previs\u00f5es sobre o futuro, estou acostumado a analisar o passado. Arrisco-me a dizer, por\u00e9m, que a pris\u00e3o de Lula n\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo cap\u00edtulo do golpe. Se n\u00e3o emplacarem um candidato alinhado com a agenda neoliberal e mais palat\u00e1vel do que o Bolsonaro, n\u00e3o me surpreenderia com outra virada de mesa.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CartaCapital \u2013 Na c\u00e9lebre obra O 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte, Karl Marx observa que os grandes acontecimentos hist\u00f3ricos costumam ocorrer duas vezes, a primeira vez como trag\u00e9dia, a segunda como farsa. Ao menos em parte, o historiador Luiz Antonio Dias, professor da PUC de S\u00e3o Paulo, confia na validade do vatic\u00ednio, embora considere certas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":4342,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-4343","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4343","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4343"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4343\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4342"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4343"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4343"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4343"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}