{"id":4111,"date":"2018-04-02T16:29:32","date_gmt":"2018-04-02T19:29:32","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/violencia-pobreza-desemprego-o-que-acontece-com-nossas-cidades\/"},"modified":"2018-04-02T16:29:32","modified_gmt":"2018-04-02T19:29:32","slug":"violencia-pobreza-desemprego-o-que-acontece-com-nossas-cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/violencia-pobreza-desemprego-o-que-acontece-com-nossas-cidades\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia, pobreza, desemprego: o que acontece com nossas cidades?"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>As cidades no Brasil j\u00e1 foram imaginadas como alento \u00e0 domina\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e conservadora de mais de quatro s\u00e9culos amplamente patrocinada pela antiga oligarquia agrarista. Com a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, as cidades foram sendo convertidas em alvo fundamental do projeto urbano e industrial urdido pelas for\u00e7as do tenentismo reformista.<\/p>\n<p>Meio s\u00e9culo depois, quando contemplam mais de 80% da popula\u00e7\u00e3o, as cidades assumiram a condi\u00e7\u00e3o de <em>l\u00f3cus<\/em> privilegiado da viol\u00eancia, pobreza, desemprego, enchentes, desmoronamento, imobilidade p\u00fablica e outros males. A ofensiva das for\u00e7as antidemocr\u00e1ticas no Brasil ap\u00f3s a d\u00e9cada de 1930 foi respons\u00e1vel pelo avan\u00e7o da urbaniza\u00e7\u00e3o excludente, parteira de uma sociedade cindida, cada vez mais polarizada e amea\u00e7adora das bases da coes\u00e3o social.<\/p>\n<p>Do <i>ranking<\/i> das cinquenta cidades violentas com mais 300 mil habitantes, por exemplo, o Brasil responde atualmente por mais de 1\/3 (17 munic\u00edpios). Dos quase 9 mil assassinatos por armas de fogo em 1980, o pa\u00eds passou para cerca de 45 mil em 2014, com crescimento de 400%.<\/p>\n<p>Nos dias de hoje, mais de 60% dos assassinatos atingem a faixa et\u00e1ria juvenil de 15 a 29 anos, sendo quase 95% do sexo masculino. Nos \u00faltimos dez anos, os homic\u00eddios contra\u00edram para o segmento branco, ao passo que para a popula\u00e7\u00e3o negra cresceu pr\u00f3ximo de 50%.<\/p>\n<p>Da viol\u00eancia instaurada, ganha espa\u00e7o a rebaixada condi\u00e7\u00e3o de vida dos moradores das cidades brasileiras. Prevalece, ainda, um enorme contingente n\u00e3o atendido sequer por servi\u00e7os b\u00e1sicos, uma vez que cerca de 45% da popula\u00e7\u00e3o urbana segue sem esgoto tratado, o que leva ao desvio dos dejetos para o curso de reios e riachos. A polui\u00e7\u00e3o das \u00e1guas decorrente do n\u00e3o tratamento de esgotos torna mais grave a pr\u00f3pria crise h\u00eddrica, cada vez mais presente no quotidiano dos brasileiros.<\/p>\n<p>Isso sem mencionar o tempo perdido durante os deslocamentos realizados intracidade. Enquanto o paulistano demora em m\u00e9dia quase 45 minutos para se deslocar da casa para o trabalho, o carioca e o recifense comprometem cerca de 35 minutos diariamente. Ou seja, mais de 15 horas mensais, em m\u00e9dia, sem nenhuma utilidade, salvo a mobiliza\u00e7\u00e3o em busca da sobreviv\u00eancia no meio urbano ao custo de quase 40% do rendimento liquido do trabalhador de sal\u00e1rio de base, incomparavelmente superior ao que se compromete, por exemplo, em Paris, Madri, Nova Iorque e Berlim.<\/p>\n<p>Assim como o desemprego acentuou-se enquanto fen\u00f4meno urbano, a pobreza seguiu presente, sobretudo nas \u00e1reas perif\u00e9ricas dos grandes centros urbanos. Ao mesmo tempo em que re\u00fane \u00e1reas ricas, com infraestrutura sofisticada, geralmente nas \u00e1reas centrais, e diversas instala\u00e7\u00f5es comerciais especializadas (como os hipermercados e shopping centers), parques e aparatos de seguran\u00e7a avan\u00e7ado, a periferia das cidades se estendeu marcada pela precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida e trabalho.<\/p>\n<p>Nesses termos, as cidades no Brasil assumiram mais a modernidade capitalista demarcada pela forma privatizada, segregada e segmentada de vida com baixa integra\u00e7\u00e3o social do que o espa\u00e7o democr\u00e1tico e o exerc\u00edcio da cidadania. As experi\u00eancias de administra\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em diversas localidades municipais buscaram enfrentar problemas estruturais assentados na l\u00f3gica excludente e desigual, incorporando pr\u00e1ticas inclusivas aos novos atores.\u00a0<\/p>\n<p>Tudo isso, contudo, termina retroagindo rapidamente com o receitu\u00e1rio neoliberal conduzido pelo governo Temer, quando n\u00e3o aprofundado ainda mais pela presen\u00e7a de administra\u00e7\u00f5es liberais conservadoras. Sem mudar drasticamente a natureza das cidades, medidas isoladas e pontuais de espetar alguns dos dramas da urbanidade brasileira dificilmente alcan\u00e7ar\u00e3o algum \u00eaxito.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 o que parece ficar a cada vez mais evidente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 recente interven\u00e7\u00e3o militar no Rio de Janeiro.<\/p>\n<div><span class=\"discreet\"><em>*Marcio Pochmann \u00e9 professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas.<\/em><\/span><\/div>\n<div>\u00a0<\/div>\n<div><span style=\"text-decoration: underline;\"><em><strong><span class=\"discreet\">FONTE: Rede Brasil Atual<\/span><\/strong><\/em><\/span><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As cidades no Brasil j\u00e1 foram imaginadas como alento \u00e0 domina\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e conservadora de mais de quatro s\u00e9culos amplamente patrocinada pela antiga oligarquia agrarista. 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