{"id":368,"date":"2012-02-23T00:00:00","date_gmt":"2012-02-23T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/artigo-do-professor-vladimir-safatle-escravos-da-modernidade\/"},"modified":"2012-02-23T00:00:00","modified_gmt":"2012-02-23T02:00:00","slug":"artigo-do-professor-vladimir-safatle-escravos-da-modernidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/artigo-do-professor-vladimir-safatle-escravos-da-modernidade\/","title":{"rendered":"Artigo do professor Vladimir Safatle: Escravos da modernidade"},"content":{"rendered":"<p>Por Vladimir Safatle*<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Na semana passada, a imprensa veiculou a not\u00edcia de que uma construtora servia-se de trabalho escravo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A obra n\u00e3o era uma hidrel\u00e9trica na regi\u00e3o Norte ou em algum lugar de dif\u00edcil acesso, onde sempre \u00e9 mais complicado descobrir o que se passa. Na verdade, a obra encontrava-se quase na esquina com a avenida Paulista.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Trata-se da reforma de um dos mais conhecidos hospitais da capital paulista, o Hospital Alem\u00e3o Oswaldo Cruz. Ironicamente, a empresa respons\u00e1vel pela obra chama-se \u201cRacional\u201d Engenharia.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Como n\u00e3o podia deixar de ser, a empresa afirmou que os trabalhadores respondiam a uma empresa terceirizada e que os dirigentes desconheciam realidade t\u00e3o irracional. Este foi o mesmo argumento que a rede espanhola de roupas Zara utilizou quando foi flagrada servindo-se de m\u00e3o de obra escrava boliviana empregada em oficinas terceirizadas no Bom Retiro.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 muito interessante como empresas que gastam fortunas em publicidade e propaganda institucional s\u00e3o t\u00e3o pouco cuidadosas no que diz respeito \u00e0s condi\u00e7\u00f5es aviltantes de trabalho das quais se beneficiam por meio do truque tosco da terceiriza\u00e7\u00e3o. Quando se contrata uma empresa terceirizada, n\u00e3o \u00e9, de fato, complicado averiguar as reais condi\u00e7\u00f5es a que trabalhadores est\u00e3o submetidos, se seus turnos s\u00e3o respeitados e se seus alojamentos s\u00e3o decentes.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>H\u00e1 de se perguntar se tal desenvoltura n\u00e3o \u00e9 resultado da cren\u00e7a de que ningu\u00e9m nunca perceber\u00e1 o curto-circuito entre imagens institucionais modernas, requintadas, \u201cracionais\u201d, e sistemas medievais de explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>No fundo, essa parece ser mais uma faceta de um velho automatismo brasileiro de repeti\u00e7\u00e3o: discursos cada vez mais elaborados e modernos, pr\u00e1ticas cada vez mais arcaicas. Afinal, tal precariedade foi feita em nome de novas pr\u00e1ticas trabalhistas, mais flex\u00edveis e adaptadas aos tempos redentores que, enfim, chegaram.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o mais a rigidez do emprego e do controle dos sindicatos, mas a leveza do para\u00edso da terceiriza\u00e7\u00e3o, onde todos ser\u00e3o, em um horizonte pr\u00f3ximo, empresas. Cada trabalhador, um empres\u00e1rio de si mesmo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Que essa flexibilidade tenha aberto as portas para uma vulnerabilidade que remete trabalhadores \u00e0 pura e simples escravid\u00e3o, isto n\u00e3o retiraria em nada o brilho da ideia. Pois apenas os que temem o risco e a inova\u00e7\u00e3o poderiam querer ainda as velhas pr\u00e1ticas trabalhistas. Pena que o novo tenha uma cara t\u00e3o velha.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Pena tamb\u00e9m que, como os gregos mostrem a cada dia, quem paga o verdadeiro pre\u00e7o do risco sejam, como dizia o velho Marx, os que j\u00e1 perderam tudo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>* Vladimir Safatle \u00e9 professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de S\u00e3o Paulo).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Fonte: Folha de S. Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Vladimir Safatle* \u00a0 Na semana passada, a imprensa veiculou a not\u00edcia de que uma construtora servia-se de trabalho escravo. \u00a0 A obra n\u00e3o era uma hidrel\u00e9trica na regi\u00e3o Norte ou em algum lugar de dif\u00edcil acesso, onde sempre \u00e9 mais complicado descobrir o que se passa. 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