{"id":2629,"date":"2017-07-12T17:58:56","date_gmt":"2017-07-12T20:58:56","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/reforma-trabalhista-espanhola-faz-cinco-anos-assim-e-a-geracao-de-jovens-desencantados-que-ela-deixou\/"},"modified":"2017-07-12T17:58:56","modified_gmt":"2017-07-12T20:58:56","slug":"reforma-trabalhista-espanhola-faz-cinco-anos-assim-e-a-geracao-de-jovens-desencantados-que-ela-deixou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/reforma-trabalhista-espanhola-faz-cinco-anos-assim-e-a-geracao-de-jovens-desencantados-que-ela-deixou\/","title":{"rendered":"Reforma trabalhista espanhola faz cinco anos: assim \u00e9 a gera\u00e7\u00e3o de jovens desencantados que ela deixou"},"content":{"rendered":"<p><em>Brasil usa reforma espanhola como modelo, mas mudan\u00e7a na legisla\u00e7\u00e3o criou empregos prec\u00e1rios<\/em><\/p>\n<p><strong>RAM\u00d3N OLIVER<\/strong> <\/p>\n<p>A espanhola Alba Nicol\u00e1s (27 anos) formou-se em Publicidade e Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas em 2013. Ao concluir o curso, ela se mudou para Barcelona, onde fez uma especializa\u00e7\u00e3o e depois uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. L\u00e1 come\u00e7ou a trabalhar como estagi\u00e1ria em empresa de marketing digital com um sal\u00e1rio de 150 euros (cerca de 556 reais) por m\u00eas a t\u00edtulo de &#8220;ajuda de transporte&#8221;. &#8220;Fui contratada para ser formada community manager, mas tudo o que aprendi foi por minha conta e na base da tentativa e erro. Tinha um tutor que corrigia o meu trabalho e o enviava ao cliente, mas ele nunca tinha tempo para me formar&#8221;, conta. Ela estava na empresa havia um ano e nove meses quando descobriu que n\u00e3o tinham pago a previd\u00eancia social um \u00fanico m\u00eas. Quando denunciou a empresa, seus chefes foram obrigados a oferecer-lhe um contrato permanente. &#8220;35 horas por semana, com um sal\u00e1rio que continuava deixando muito a desejar e aguentando os maus modos no tratamento pessoal&#8221;. Nove meses depois, foi despedida.<\/p>\n<p>Alba \u00e9 uma millennial, gera\u00e7\u00e3o dos nascidos entre 1981 e 1994 e tinha 22 anos quando seu pa\u00eds aprovou uma reforma trabalhista que mudou a rela\u00e7\u00e3o de trabalho entre as empresas e os funcion\u00e1rios \u2014boa parte deles jovens como ela. E \u00e9 justamente esta reforma, aprovada em 2012 na Espanha, que o Governo do presidente Michel Temerusa como principal refer\u00eancia para a sua proposta de reforma trabalhista, que pode ser votada nesta ter\u00e7a-feira pelo plen\u00e1rio do Senado. A gera\u00e7\u00e3o de Alba representar\u00e1 35% da for\u00e7a de trabalho global em 2020, de acordo com o Manpower Group.<\/p>\n<p>O conceito de millennial tornou-se uma marca global. Deles se disse que s\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o mais preparada da hist\u00f3ria; que est\u00e3o permanentemente conectados porque cresceram com a Internet e as novas tecnologias; que o dinheiro n\u00e3o \u00e9 sua prioridade; que o que buscam s\u00e3o experi\u00eancias motivadoras com as quais possam crescer; que preferem trabalhar em empresas comprometidas com o meio ambiente e a sociedade; que n\u00e3o querem ouvir e nem falar de um hor\u00e1rio das 9h \u00e0s 18h, mas de modelos flex\u00edveis e por resultados; que s\u00e3o empreendedores; que entendem como ningu\u00e9m a nova economia, porque a vivem em primeira pessoa como consumidores do Uber, Airbnb, Wallapop&#8230;<\/p>\n<p>Com tais credenciais, o normal seria que as empresas brigassem por esse talento emergente. De fato, esse \u00e9 o discurso que muitas delas fazem com insist\u00eancia. Numa pesquisa feita em 2015 pela Deloitte sobre a Gera\u00e7\u00e3o do Mil\u00eanio, Barry Salzberg, seu CEO, exortou a comunidade empresarial dos mercados desenvolvidos a &#8220;identificar as mudan\u00e7as que necessitam fazer para atrair e se comprometer com essa gera\u00e7\u00e3o&#8221;. E advertiu: &#8220;Caso contr\u00e1rio, corre-se o risco de perd\u00ea-los e ficar para tr\u00e1s&#8221;. No entanto, as taxas de desemprego que assolam os jovens na Espanha, de aproximadamente 40% (e de cerca de 27% no Brasil), indicam que, pelo visto, n\u00e3o h\u00e1 tanta pressa para seduzi-los. E isso tem outras consequ\u00eancias sociais: a idade m\u00e9dia de emancipa\u00e7\u00e3o \u00e9 29 anos (quase dez anos a mais que os suecos), sua situa\u00e7\u00e3o pessoal n\u00e3o tem nada a ver com a de seus pais quando estes tinham a mesma idade e a idade m\u00e9dia em que as espanholas s\u00e3o m\u00e3es passou de 28,2 anos em 1980 para 32,2 em 2014.<\/p>\n<p>Juan Mar\u00eda Gonz\u00e1lez-Anleo, professor de Sociologia da ESIC Business &amp; Marketing School e autor do livro Generaci\u00f3n Selfie, lembra que millennial \u00e9 um conceito importado dos Estados Unidos. &#8220;Talvez nos pa\u00edses anglo-sax\u00f5es ou na Alemanhase aposte mais decisivamente nesse talento, mas na Espanha as empresas n\u00e3o est\u00e3o muito empenhadas&#8221;, lamenta. Ana Sarmiento, especialista em estrat\u00e9gias de trabalho para a gera\u00e7\u00e3o do mil\u00eanio est\u00e1 de acordo. &#8220;Muito poucas empresas sabem o que fazer com esses jovens. E o mais triste \u00e9 que muito poucas est\u00e3o interessadas em saber&#8221;. No m\u00e1ximo, continua, come\u00e7am a se se interessar agora por sua faceta de consumidores para tentar fideliz\u00e1-los. &#8220;Mas os millennials n\u00e3o s\u00f3 consomem, tamb\u00e9m s\u00e3o uma nova gera\u00e7\u00e3o de profissionais livres, abertos e digitais. E poucas organiza\u00e7\u00f5es tiveram a ideia de tentar fideliz\u00e1-los tamb\u00e9m como empregados.<\/p>\n<p>Antes de se tornar empreendedor, o espanhol Luis Alberto Santos (27 anos) ouviu muitas hist\u00f3rias nas entrevistas de emprego que a realidade logo desmentiu. &#8220;Hor\u00e1rios flex\u00edveis que na pr\u00e1tica eram hor\u00e1rios fixos, lugares em que \u00e9 mal visto sair no hor\u00e1rio, normas de seguran\u00e7a que s\u00f3 s\u00e3o cumpridas caso haja uma auditoria ou uma visita importante&#8221;, enumera. A lista dos horrores tamb\u00e9m se estende \u00e0 gest\u00e3o de talentos. &#8220;Muitas empresas enchem a boca com a promo\u00e7\u00e3o ou a carreira profissional. Mas nunca me perguntaram o que eu mais gosto, quais tarefas eu executo melhor ou como poderia desenvolver meu talento&#8221;.<\/p>\n<p>O discurso das empresas, no entanto, geralmente \u00e9 outro. S\u00e3o frequentes as proclama\u00e7\u00f5es lembrando que muito em breve essa gera\u00e7\u00e3o estar\u00e1 no comando: os millennials s\u00e3o chamados para acabar com os estilos autorit\u00e1rios de lideran\u00e7a, para impulsionar um novo modelo de trabalho colaborativo e digital&#8230; Mas por enquanto a &#8220;chamada&#8221; que parece chegar a eles com mais nitidez \u00e9 a de ir tentar a sorte no exterior. Conforme dados do Instituto Nacional de Estat\u00edstica, no primeiro semestre de 2016 emigraram da Espanha 47.784 pessoas. Boa parte dessa di\u00e1spora \u00e9 de millennials. &#8220;\u00c9 muito triste que as conversas que escuto dos meus alunos quando saio para fumar nos intervalos tratem sobre se o Chile \u00e9 um bom lugar para trabalhar ou se as condi\u00e7\u00f5es no Reino Unido pioraram muito para os espanh\u00f3is por causa do Brexit&#8221;, comenta o professor Gonz\u00e1lez-Anleo.<\/p>\n<p>Gera\u00e7\u00e3o de desencantados<\/p>\n<p>Os especialistas falam dos millennials como uma gera\u00e7\u00e3o desencantada. &#8220;Eles se sentem enganados. Prometemos a eles que se estudassem uma profiss\u00e3o, fizessem uma especializa\u00e7\u00e3o e aprendessem l\u00ednguas estrangeiras teriam uma vantagem competitiva em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho. E agora temos jovens profissionais muito capacitados, com pouco emprego e baixa remunera\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma Sarmiento.<\/p>\n<p>Quando aprovada em 2012, durante a segunda recess\u00e3o de uma longa crise que o pa\u00eds tenta superar h\u00e1 mais de 10 anos, a reforma trabalhista espanhola prometia mais empregos o que, da fato, ocorreu. Entretanto, passados cinco anos, v\u00e1rias pesquisas mostram que, embora haja mais vagas dispon\u00edveis no mercado de trabalho formal que na \u00e9poca da aprova\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a na legisla\u00e7\u00e3o, eles s\u00e3o mais prec\u00e1rios.<\/p>\n<p>Para o professor Gonz\u00e1lez-Anleo foram rompidos os pactos fundamentais que regiam as rela\u00e7\u00f5es entre trabalhadores e empresas. E assim \u00e9 dif\u00edcil esperar compromisso ou fidelidade: &#8220;Uma empresa pode exigir que voc\u00ea deixe sua alma no trabalho se voc\u00ea recebe 2.000 euros por m\u00eas. Mas recebendo 700 ou menos e sabendo, al\u00e9m disso, que no m\u00eas seguinte voc\u00ea pode estar na rua, pouco te podem pedir&#8221;.<\/p>\n<p>Luis Alberto Santos aponta que as gera\u00e7\u00f5es anteriores s\u00e3o o principal obst\u00e1culo. &#8220;Se a empresa \u00e9 dirigida por baby boomers, a mentalidade e os h\u00e1bitos do millennial desaparecem, provocando uma grande insatisfa\u00e7\u00e3o e um sentimento de frustra\u00e7\u00e3o&#8221;, diz. \u00c9 rec\u00edproco. Arrogantes, vol\u00faveis, egoc\u00eantricos, pregui\u00e7osos&#8230; s\u00e3o alguns dos r\u00f3tulos com os quais os mais velhos identificam, por sua vez, essa gera\u00e7\u00e3o. Uma imagem que Alba Nicol\u00e1s n\u00e3o compartilha: &#8220;Pelo menos no meu ambiente, todos os meus amigos trabalharam e estudaram simultaneamente em algum momento de suas vidas. Nos preocupamos com o nosso futuro, com trabalhar duro e continuar a nossa forma\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Ana Sarmiento n\u00e3o acredita que levantar a quest\u00e3o em termos de guerra geracional ajude qualquer uma das partes. &#8220;Os ambientes de trabalho est\u00e3o se polarizando excessivamente. Os mais velhos estigmatizam os millennials e os jovens fazem o mesmo com a velha guarda. Acredito que seria mais inteligente construir pontes que permitissem que essa gera\u00e7\u00e3o se ajustasse a um sistema produtivo que n\u00e3o foi criado para ela, mas pelo qual ser\u00e1 respons\u00e1vel muito em breve&#8221;. Alba Nicol\u00e1s, por sua vez, pede maior compromisso e a\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m dos pr\u00f3prios millennials. &#8220;Temos de nos mexer mais, lutar por nossos direitos e reivindicar o que \u00e9 justo para poder realizar o nosso trabalho em condi\u00e7\u00f5es aceit\u00e1veis&#8221;.<\/p>\n<p>O QUE OS MILLENNIALS PENSAM DAS OUTRAS GERA\u00c7\u00d5ES?<\/p>\n<p>Assim nos vemos, assim somos vistos. Dados do relat\u00f3rio. &#8216;Diagn\u00f3stico de la Diversidad Generational&#8217; (Diagn\u00f3stico da Diversidade Geracional), um estudo do Observatorio Generaci\u00f3n &amp; Talento e da Universidad Pontificia de Comillas-ICAI-ICADE:<\/p>\n<p>Da gera\u00e7\u00e3o baby boomers (1956-1970)<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 muito dif\u00edcil ver valor nessa gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Recebem sal\u00e1rios muito altos para o que contribuem com a organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Tem muita gente sobrando e que n\u00e3o se adaptou ou n\u00e3o quis se adaptar ao novo.<\/p>\n<p>Da gera\u00e7\u00e3o X (1971-1981)<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o identificam muitas pessoas para seguir.<\/p>\n<p>&#8211; Aus\u00eancia clara de l\u00edderes e falta de qualidade diretiva.<\/p>\n<p>&#8211; Observam uma lealdade ou fidelidade \u00e0 empresa, o que eles n\u00e3o t\u00eam.<\/p>\n<p>Da a gera\u00e7\u00e3o Z (a partir de 1995)<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o ainda mais bem preparados do que eles.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00eam um esp\u00edrito mais livre e empreendedor, pois cresceram durante a crise.<\/p>\n<p>&#8211; S\u00e3o os verdadeiros nativos digitais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brasil usa reforma espanhola como modelo, mas mudan\u00e7a na legisla\u00e7\u00e3o criou empregos prec\u00e1rios RAM\u00d3N OLIVER A espanhola Alba Nicol\u00e1s (27 anos) formou-se em Publicidade e Rela\u00e7\u00f5es P\u00fablicas em 2013. Ao concluir o curso, ela se mudou para Barcelona, onde fez uma especializa\u00e7\u00e3o e depois uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. 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