{"id":254,"date":"2012-01-26T00:00:00","date_gmt":"2012-01-26T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/para-boaventura-entramos-numa-era-onde-as-ruas-dao-as-respostas\/"},"modified":"2012-01-26T00:00:00","modified_gmt":"2012-01-26T02:00:00","slug":"para-boaventura-entramos-numa-era-onde-as-ruas-dao-as-respostas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/para-boaventura-entramos-numa-era-onde-as-ruas-dao-as-respostas\/","title":{"rendered":"Para Boaventura, \u201centramos numa era onde as ruas d\u00e3o as respostas"},"content":{"rendered":"<p>Um dos nomes mais importantes quando se fala em F\u00f3rum Mundial \u00e9 o soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Souza. N\u00e3o fugindo \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, o audit\u00f3rio do Sal\u00e3o de Atos da Unilasalle, em Canoas, estava lotado para ouvir sua primeira palestra no F\u00f3rum Social Tem\u00e1tico 2012, na quarta-feira (25).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Boaventura abriu o Semin\u00e1rio Internacional de Cidades de Periferia FALP e apresentou sete amea\u00e7as ao desenvolvimento humano para a pr\u00f3xima d\u00e9cada. Apesar de otimista, disse que os desafios do pr\u00f3ximo per\u00edodo ser\u00e3o maiores dos que os dos \u00faltimos dez anos e que, para super\u00e1-los, os movimentos sociais precisam integrar-se a fim de assumir o protagonismo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Com uma breve exposi\u00e7\u00e3o sobre a atual conjuntura mundial, o soci\u00f3logo recordou que o modelo neoliberal segue dando mostras de fal\u00eancia e provocando descontentamento em diversas partes do mundo. \u201cO conhecimento que produziu a crise de 2008, ainda segue quebrando economias e, portanto, estamos vivendo uma nova crise mundial. E quem est\u00e1 protegendo os direitos das pessoas s\u00e3o os \u2018occupys\u2019, n\u00e3o os governos, muito menos a pol\u00edcia\u201d, salientou.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Boaventura disse que uma crise pode ser bem aproveitada, desde que haja capacidade de adapta\u00e7\u00e3o por parte das institui\u00e7\u00f5es, o que infelizmente n\u00e3o acontece, lamentou. \u201cVeja o movimento dos indignados. Eles est\u00e3o nas ruas porque a pol\u00edtica institucional n\u00e3o venceu. Os partidos nunca quiseram dialogar com eles porque a Uni\u00e3o Europeia tem medo da democracia. Estamos entrando, portanto, numa era p\u00f3s-institui\u00e7\u00e3o\u201d, falou.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Sobre como aproveitar os movimentos e os protestos surgidos em diversos continentes contra o modelo capitalista, Boaventura de Souza diz que ainda \u00e9 preciso descobrir, uma vez que eles s\u00e3o bons para resist\u00eancia, mas, n\u00e3o s\u00e3o ambientes onde se elaboram alternativas. \u201cEu chamo aten\u00e7\u00e3o para import\u00e2ncia do papel dos movimentos sociais nesta fase. Mas, de forma articulada. Movimentos dos Direitos Humanos t\u00eam que estar junto com a Economia Solid\u00e1ria. Os camponeses com ambientalistas. Porque as amea\u00e7as est\u00e3o unidas. E as palavras de ordem s\u00e3o: democratizar, descentralizar e descolonizar\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As sete amea\u00e7as da humanidade<\/p>\n<p>Como resultado de um modelo de governan\u00e7a que trabalhou de costas para os povos e hoje colhem as respostas das ruas, \u00fanico local ainda livre de influ\u00eancia de partidos ou organiza\u00e7\u00f5es, Boaventura apresentou setes amea\u00e7as para a humanidade nos pr\u00f3ximos dez anos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 a desorganiza\u00e7\u00e3o do estado. \u201cA base de impostos se transformou em empr\u00e9stimos. Com a elevada tributa\u00e7\u00e3o os estados tiveram que pedir empr\u00e9stimos e ficando a merc\u00ea das multinacionais. S\u00f3 a Europa que ainda n\u00e3o desobedeceu o FMI por achar, equivocadamente que \u00e9 presidente do fundo\u201d, falou.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A segunda amea\u00e7a apresentada pelo Boaventura de Souza \u00e9 a desconsolida\u00e7\u00e3o da democracia. \u201cN\u00e3o me refiro s\u00f3 as elei\u00e7\u00f5es livres. Falo de acesso \u00e0 servi\u00e7os, com sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o para todos. Hoje, ainda n\u00e3o temos acesso a direitos universais essenciais. N\u00e3o precisamos mais de ditadura, porque a atual democracia j\u00e1 virou uma\u201d, comparou.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Como terceira amea\u00e7a, Boaventura citou a destrui\u00e7\u00e3o da natureza, principal tema do F\u00f3rum Social Tem\u00e1tico 2012 e objeto da Confer\u00eancia dos Povos Rio +20, que ocorrer\u00e1 no Brasil em junho. \u201cEste evento da Rio +20 ser\u00e1 a celebra\u00e7\u00e3o do capitalismo verde. H\u00e1 20 anos os ambientalistas vieram discutir a nossa biodiversidade. De l\u00e1 pra c\u00e1 grandes multinancionais imp\u00f5em as regras e as falsas energias limpas. Existem tr\u00eas lobistas destas empresas para cada congressista americano. Ent\u00e3o, o capitalismo nunca ser\u00e1 verde. Consumo sustent\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 reciclar o lixo. N\u00f3s consumimos produtos que provem do sangue de camponeses africanos e qual a nossa preocupa\u00e7\u00e3o com isso?\u201d, indagou.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>E provocou as autoridades presentes na palestra: \u201cOs ind\u00edgenas s\u00e3o os principais protetores das nossas riquezas. Existe algum deles aqui nesta confer\u00eancia?\u201d. Como ningu\u00e9m se pronunciou, o soci\u00f3logo disse: \u201cIsso \u00e9 o que eu chamo de sociologia da aus\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A quarta amea\u00e7a \u00e9 a desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho. \u201cHoje em dia n\u00e3o se distingue mais o que \u00e9 tempo livre e o que \u00e9 trabalho. Os jovens se formaram e fizeram tudo certinho para que? N\u00e3o tem trabalho. Eles est\u00e3o nos computadores. Ou, s\u00e3o explorados, trabalhando em casa, em todos os hor\u00e1rios. Mesmo no tempo livre estamos consumindo e alimentando o sistema capitalista. \u00c9 uma constante explora\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A quinta amea\u00e7a \u00e9 a comercializa\u00e7\u00e3o do conhecimento, onde as novas universidades aparecem como principais destruidoras da curiosidade e do pensamento cr\u00edtico. \u201cS\u00e3o empresas comerciais que surgem como universidades. Qual o lugar da poesia, da literatura e das ci\u00eancias humanos neste sistema?\u201d, questionou.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Como exemplo da sexta amea\u00e7a, o soci\u00f3logo citou a criminaliza\u00e7\u00e3o da dissid\u00eancia. \u201cO caso de Pinheirinhos \u00e9 apenas uma amostra do que ocorre no continente inteiro. Se criminaliza os movimentos sociais e se manipula o medo das pessoas, dando lucro para as empresas de seguran\u00e7a privada\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>E, por fim, s\u00e9tima amea\u00e7a \u00e0 humanidade \u00e9 recolonizar a diferen\u00e7a. \u201cSexismo e racismo est\u00e3o presentes ainda. Repress\u00e3o \u00e0 diversidade sexual \u00e9 feita com a ortodoxia dos religiosos. \u00c9 preciso lutar pela igualdade racial, mas tamb\u00e9m pelo fim do racismo\u201d, explicou.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Boaventura de Souza foi o principal palestrante do Semin\u00e1rio Internacional de Cidades de Periferia FALP, que segue at\u00e9 quinta-feira, 26, em Canoas. Na sexta-feira, 27, as discuss\u00f5es ser\u00e3o em S\u00e3o Leopoldo. O semin\u00e1rio re\u00fane mais de mil representantes de munic\u00edpios do Brasil e de outros pa\u00edses em busca da constru\u00e7\u00e3o de um novo ponto de vista para o desenvolvimento das cidades, olhando para as periferias e n\u00e3o partindo dos centros das grandes metr\u00f3poles.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 novos problemas e novas perguntas que exigem novas respostas e novas solu\u00e7\u00f5es. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o para daqui 30 anos ou para as novas gera\u00e7\u00f5es. Estamos sentindo os efeitos aqui, no Vale do Sinos, com a estiagem e a mortandade de peixes. N\u00e3o estamos afetando s\u00f3 as sete maravilhas do mundo, estamos afetando vidas. Vidas que est\u00e3o nas periferias. Por isso temos que por na agenda o debate sobre drenagem, res\u00edduos s\u00f3lidos, entre outros. Em uma vis\u00e3o polic\u00eantrica e n\u00e3o mais excluindo as periferias\u201d, falou o prefeito de Canoas e anfitri\u00e3o do semin\u00e1rio, Jairo Jorge.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A ideia surgiu h\u00e1 10 anos, durante o F\u00f3rum Social Mundial e constituiu uma rede ampla e aberta de autoridades e interessados no tema. Em junho de 2010, surgiu o II F\u00f3rum de Autoridades Locais de Periferia para Metr\u00f3poles Solid\u00e1rias realizado em Getafe, Espanha. O \u00e1pice desse processo ser\u00e1 a realiza\u00e7\u00e3o do III F\u00f3rum de Autoridades Locais de Periferia para Metr\u00f3poles Solid\u00e1rias, que acontecer\u00e1 em Canoas, Brasil, em junho de 2013.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Fonte: Rachel Duarte \u2013 Sul21<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos nomes mais importantes quando se fala em F\u00f3rum Mundial \u00e9 o soci\u00f3logo portugu\u00eas Boaventura de Souza. 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