{"id":2236,"date":"2017-01-05T00:00:00","date_gmt":"2017-01-05T02:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/pec-da-previdencia-e-uma-reforma-a-ser-barrada\/"},"modified":"2017-01-05T00:00:00","modified_gmt":"2017-01-05T02:00:00","slug":"pec-da-previdencia-e-uma-reforma-a-ser-barrada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/pec-da-previdencia-e-uma-reforma-a-ser-barrada\/","title":{"rendered":"PEC da Previd\u00eancia \u00e9 uma reforma a ser barrada"},"content":{"rendered":"<h2>Apresentada em dezembro pelo governo, a PEC 287 contraria especialistas e centrais sindicais<\/h2>\n<p>A Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) 287, enviada ao Congresso em dezembro pelo presidente Michel Temer com objetivo de reformar a Previd\u00eancia Social no pa\u00eds, \u00e9 mais uma tentativa de desconstru\u00e7\u00e3o das garantias sociais previstas na Carta de 1988 \u2013 pr\u00e1tica que tem pautado de maneira acelerada o governo depois do impeachment de Dilma Rousseff. Submerso nos ditames de um projeto sem respaldo da sociedade \u2013 que desde 2002 se recusa a eleger governos com ideias de teor neoliberal \u2013, mas apenas das elites endinheiradas do pa\u00eds, a reforma muda radicalmente a concep\u00e7\u00e3o de um sistema que at\u00e9 aqui refletia, ainda que com limita\u00e7\u00f5es, os interesses dos trabalhadores e a capacidade de organiza\u00e7\u00e3o de suas categorias. O texto conseguiu o feito de contrariar especialistas em Direito do Trabalho e previdenci\u00e1rio, al\u00e9m de todas as centrais sindicais.<\/p>\n<p>Para o presidente da CUT, Vagner Freitas, a agenda de Temer est\u00e1 destruindo o Brasil. \u201c\u00c9 pior do que o confisco da poupan\u00e7a feito por Collor. N\u00e3o \u00e9 com arrocho, desemprego e o fim das aposentadorias que o Brasil vai sair da crise. Isso s\u00f3 contribui para aumentar a pobreza, a viol\u00eancia e fazer o pa\u00eds andar para tr\u00e1s\u201d, afirma. \u201cA classe trabalhadora vai aos poucos se conscientizando dos preju\u00edzos causados por esse governo e, com certeza, se organizar e mobilizar cada vez mais para reverter essa situa\u00e7\u00e3o\u201d, diz, referindo-se a uma pesquisa feita pelo Instituto Vox Populi a pedido da central, que revela a crescente desaprova\u00e7\u00e3o do governo pelos brasileiros \u2013 e que 87% rejeitam a reforma da Previd\u00eancia.<\/p>\n<p>Segundo o coordenador do Dieese Fausto Augusto J\u00fanior, a ideia \u00e9 \u201cabsurda\u201d e faz parte de um processo de desconstru\u00e7\u00e3o do sistema previdenci\u00e1rio. \u201cDe um ponto de vista bem objetivo, estamos falando que vamos deixar em torno de 70% da popula\u00e7\u00e3o fora do sistema previdenci\u00e1rio. Mais grave do que isso \u00e9 que \u00e9 uma proposta para a desconstru\u00e7\u00e3o do setor da Previd\u00eancia p\u00fablica no Brasil\u201d, afirmou Fausto, em entrevista ao\u00a0<em>Seu Jornal<\/em>, da TVT.<\/p>\n<p>Na semana que a PEC foi apresentada, os metal\u00fargicos do ABC paulista promoveram um grande protesto, que reuniu mais de 12 mil pessoas na Via Anchieta, que liga S\u00e3o Paulo ao litoral sul, dando uma indica\u00e7\u00e3o de que se inicia um per\u00edodo de resist\u00eancia. \u201cCom essa proposta n\u00e3o tem discuss\u00e3o, tem luta. N\u00e3o vai ter arrego e a nossa proposta \u00e9 que o Michel Temer retire o texto\u201d, afirmou o presidente do sindicato da categoria, Rafael Marques. \u201cO caminho \u00e9 ocupar as ruas.\u201d<\/p>\n<p>Aprovada a toque de caixa pela Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a da C\u00e2mara na madrugada de 15 de dezembro\u00a0 \u2013 foram 31 votos a favor e 20 contra \u2013, a 287 aguarda a forma\u00e7\u00e3o de uma comiss\u00e3o especial na Casa, o que deve ocorrer em fevereiro, depois da elei\u00e7\u00e3o da mesa diretora.<\/p>\n<p>Dias depois da apresenta\u00e7\u00e3o da PEC, no in\u00edcio de dezembro, v\u00e1rias centrais sindicais se reuniram na sede do Dieese\u00ad, em S\u00e3o Paulo, para avaliar a proposta governista, que foi criticada por todas as entidades. \u201cH\u00e1 uma avalia\u00e7\u00e3o preliminar de um posicionamento contr\u00e1rio ao projeto, que afeta em muitas dimens\u00f5es a vida do trabalhador\u201d, afirmou o diretor t\u00e9cnico do instituto, Clemente Ganz L\u00facio.<\/p>\n<p>Ainda em outubro, o Dieese havia divulgado um documento com propostas do movimento sindical, enfatizando a necessidade de di\u00e1logo para implementar mudan\u00e7as. \u201cAs sugest\u00f5es mostram que \u00e9 poss\u00edvel pensar em sustentabilidade em longo prazo na Previd\u00eancia, sem passar de imediato pela redu\u00e7\u00e3o dos direitos de prote\u00e7\u00e3o social. O debate sobre a Previd\u00eancia, no longo prazo, \u00e9 sempre necess\u00e1rio, mas isso deve ser feito com ampla participa\u00e7\u00e3o de trabalhadores e as organiza\u00e7\u00f5es sindicais.\u201d<\/p>\n<p>\u201cUma reforma tem de ser para melhorar a vida dos brasileiros\u201d, afirma o secret\u00e1rio-geral da CUT, S\u00e9rgio Nobre, chamando de \u201cperversa\u201d a proposta do governo e dizendo que o pa\u00eds caminha para a selvageria. \u201cA CUT h\u00e1 algum tempo j\u00e1 vem falando que esse tema tem de ser debatido de forma ampla na sociedade brasileira. Queremos uma Previd\u00eancia que proteja os trabalhadores.\u201d O secret\u00e1rio de Previd\u00eancia da CTB, Pascoal Carneiro, acrescenta que a inten\u00e7\u00e3o do governo \u00e9 \u201cprivatizar o sistema p\u00fablico e acabar com o cap\u00edtulo da Constitui\u00e7\u00e3o que trata de seguridade social\u201d.<\/p>\n<p>Aliado do governo, o presidente da For\u00e7a Sindical e do Solidariedade, deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, observou que o projeto tem uma s\u00e9rie de irregularidades. \u201cProvavelmente, a grande maioria do povo brasileiro vai morrer antes. Tamb\u00e9m n\u00e3o aceitamos a desvincula\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo das pens\u00f5es\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>T\u00e3o importante quanto a ado\u00e7\u00e3o de 65 anos de idade m\u00ednima para a aposentadoria, um dos pontos centrais do projeto de Temer, \u00e9 a unifica\u00e7\u00e3o das regras de acesso e benef\u00edcio iguais entre trabalhadores, n\u00e3o importando se homens ou mulheres, se urbanos ou rurais, se oriundos do setor privado ou p\u00fablico. Nesse sentido, a economista e professora Rosa Maria Marques, da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC) de S\u00e3o Paulo, estudiosa da Previd\u00eancia no Brasil, considera a reforma uma profunda mudan\u00e7a, que despreza as especificidades dos trabalhadores e n\u00e3o altera o modelo de financiamento do sistema. \u201cHouve uma clara op\u00e7\u00e3o por trabalhar com o fluxo de despesas, muito embora proponha o fim da isen\u00e7\u00e3o da contribui\u00e7\u00e3o sobre os produtos exportados, o que deve aumentar a arrecada\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>A professora faz pondera\u00e7\u00f5es sobre o chamado \u201crombo\u201d da Previd\u00eancia, que segundo o governo pode superar R$ 180 bilh\u00f5es em 2017. \u201cEsses n\u00fameros s\u00e3o constru\u00eddos considerando a Previd\u00eancia Social em si, isto \u00e9, suas receitas e despesas. Ocorre que a Previd\u00eancia Social faz parte da Seguridade Social que, como sabem, \u00e9 superavit\u00e1ria\u201d, diz Rosa. \u201cMas essa constata\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica desconhecer que a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 vivendo mais, de forma que permanece no sistema recebendo aposentadoria por mais tempo. Tal situa\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica coloca a necessidade de a sociedade brasileira pensar sua sustentabilidade de m\u00e9dio e longo prazo.\u201d<\/p>\n<h3><strong>Rosa Marques: o c\u00e1lculo para n\u00e3o pagar<\/strong><\/h3>\n<p><strong>JAILTON GARCIA\/RBA<a href=\"http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/revistas\/124\/uma-reforma-a-ser-barrada-7887.html\/rosa-maria\"><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>Rosa: est\u00e1 em jogo um pacto de prote\u00e7\u00e3o social para o risco velhice<\/strong><\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o por atacar as despesas significa que pelo novo regime, se aprovado, os trabalhadores ter\u00e3o um caminho mais \u00e1rduo para se aposentar, que culminar\u00e1 com a necessidade de mais tempo de contribui\u00e7\u00e3o e menores valores a serem percebidos. Tamb\u00e9m torna-se praticamente imposs\u00edvel alcan\u00e7ar o valor da aposentadoria pelo teto, a n\u00e3o ser que o trabalhador contribua por 49 anos, uma medida impens\u00e1vel se o governo em quest\u00e3o tivesse respaldo do voto direto. \u201cEnfim, o c\u00e1lculo proposto foi concebido para que n\u00e3o se pague a aposentadoria pelo valor do teto\u201d, diz a professora Rosa Maria Marques, da PUC de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>A ado\u00e7\u00e3o da idade m\u00ednima de 65 anos para homem e mulher, e o per\u00edodo m\u00ednimo de contribui\u00e7\u00e3o de 25 anos para requerer o direito \u00e0 aposentadoria s\u00e3o as mudan\u00e7as essenciais da proposta. O que a senhora pensa disso?<\/strong><\/p>\n<p>Eu complementaria que a harmoniza\u00e7\u00e3o entre os atuais regimes e para todos os entes da federa\u00e7\u00e3o \u00e9 central na proposta encaminhada. Isto \u00e9, ela prop\u00f5e regras de acesso \u00e0 aposentadoria e de c\u00e1lculo do benef\u00edcio iguais entre trabalhadores do setor privado e servidores, sejam da Uni\u00e3o, dos estados ou dos munic\u00edpios, neles incluindo os que exercem cargo eletivo. O \u00fanico setor que fica de fora \u00e9 constitu\u00eddo pelas For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando por esse \u00faltimo aspecto: n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que isso \u00e9 aventado, mas \u00e9 a primeira vez que \u00e9 proposto. Sua justificativa se funda na ideia de que a cobertura do risco velhice (aposentadoria) deve ser igual para todos e, por isso, essa perspectiva foi abra\u00e7ada por setores da esquerda brasileira em diferentes momentos. Ao unificar as regras de acesso dos regimes, os regimes pr\u00f3prios deixam de ter especificidades, as quais foram produto de v\u00e1rios fatores, entre eles a for\u00e7a que as categorias tiveram no passado para impor essas especificidades.<\/p>\n<p>Poder-se-ia dizer, por outro lado, que a harmoniza\u00e7\u00e3o dos regimes tem por detr\u00e1s a concep\u00e7\u00e3o de que a aposentadoria constitui uma renda de substitui\u00e7\u00e3o ao trabalho em geral. No Brasil, isso j\u00e1 havia sido feito quando foram unificados os institutos estruturados com base em categorias de trabalhadores e criado o INSS. Mas tratava-se dos trabalhadores do setor privado da economia. Agora, a proposta abrange todos os trabalhadores, independentemente da fun\u00e7\u00e3o exercida, se no setor privado ou p\u00fablico. A ideia de trabalho, portanto, ocorre em outro n\u00edvel de abstra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia disso, al\u00e9m de implicar em perda para algumas categorias, significa n\u00e3o mais considerar os servidores de forma diferente dos demais trabalhadores. Em outras palavras, o reconhecimento de que o servidor deveria ter um estatuto diferente exatamente por ser o representante do Estado na rela\u00e7\u00e3o com a sociedade civil e que, por isso, deveria ter sua renda garantida durante toda sua vida (<em>ativa e inativa<\/em>) deixa de existir. A rigor, essa garantia para os servidores da Uni\u00e3o j\u00e1 tinha sido perdida em 2003, quando da reforma feita por Lula. Mas essa regra s\u00f3 foi aplicada para os novos ingressantes. Agora, a proposta se aplica para todos os servidores com idade igual ou menor que 50 anos e para as servidoras com idade igual ou menor que 45 anos.<\/p>\n<p><strong>Mas o que a senhora pensa da idade de 65 anos?<\/strong><\/p>\n<p>Ela pressup\u00f5e o desconhecimento das condi\u00e7\u00f5es desiguais entre homens e mulheres e entre trabalhadores urbanos e rurais. Basicamente, a proposta de tratamento igual para o acesso \u00e0 aposentadoria desconsidera que a dupla jornada de trabalho ainda \u00e9 uma realidade para a maioria das mulheres brasileiras. Al\u00e9m disso, a imposi\u00e7\u00e3o do m\u00ednimo de 65 anos, para aqueles que ingressarem depois da publica\u00e7\u00e3o da emenda (vigorando uma transi\u00e7\u00e3o para os homens com idade superior a 50 anos e para as mulheres com idade superior a 45 anos) eleva sobremaneira o tempo de perman\u00eancia na vida ativa. Em 2014, a idade m\u00e9dia dos que requereram aposentadoria no meio urbano foi de 54,2 anos, sendo de 52,3 no caso das mulheres e de 55,1 dos homens.<\/p>\n<p><strong>A reforma atira em um lado s\u00f3: aumentar as exig\u00eancias de acesso hoje para gastar menos com benef\u00edcios mais adiante. Mas n\u00e3o trata de como modificar\/ampliar a base e o volume de arrecada\u00e7\u00e3o. Isso pode ser chamado de reforma?<\/strong><\/p>\n<p>Houve uma clara op\u00e7\u00e3o por trabalhar com o fluxo de despesas, muito embora proponha o fim da isen\u00e7\u00e3o da contribui\u00e7\u00e3o sobre os produtos exportados, o que deve aumentar a arrecada\u00e7\u00e3o. A alternativa das receitas colocaria, para seus proponentes, alguns problemas. No caso de aumentar os valores das al\u00edquotas das contribui\u00e7\u00f5es atualmente vigentes (sobre a folha de sal\u00e1rios ou sobre o faturamento no caso das empresas que optaram por substituir a contribui\u00e7\u00e3o sobre a folha pelo faturamento), isso seria muito mal recebido por todos os segmentos da sociedade, sejam empres\u00e1rios ou trabalhadores, pois h\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o de que o n\u00edvel de imposi\u00e7\u00e3o do Estado \u00e9 muito elevado. Se, como alternativa, fossem pensadas outras fontes de financiamento que n\u00e3o aquela do trabalho (pois trabalham com a ideia de que s\u00f3 t\u00eam direito \u00e0 aposentadoria aqueles que para ela contribu\u00edram, conformando uma aposentadoria meritocr\u00e1tica, no jarg\u00e3o das pol\u00edticas sociais e n\u00e3o uma renda decorrente da cidadania), al\u00e9m de que isso seria entendido como aumento da carga tribut\u00e1ria, tal iniciativa comprometeria o \u201cdesenho\u201d de sua previd\u00eancia social que est\u00e3o propondo refor\u00e7ar. Tanto \u00e9 assim que sua proposta de redu\u00e7\u00e3o dos valores das pens\u00f5es \u00e9 fundamentada na ideia de que seus valores decorrem de um direito a um seguro, de modo que podem perfazer um valor menor do que o sal\u00e1rio m\u00ednimo. Somente a rendas que substituem o trabalho ser\u00e1 mantido o piso de um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Nesse sentido, a reforma n\u00e3o acompanha o que est\u00e1 sendo feito em outros pa\u00edses, mesmo naqueles que tinham as contribui\u00e7\u00f5es calculadas sobre os sal\u00e1rios como sua principal base de financiamento.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o h\u00e1 sinal de retomada do crescimento econ\u00f4mico, ao contr\u00e1rio: as previs\u00f5es s\u00e3o de agravamento da recess\u00e3o. Com mais desemprego e tend\u00eancia de redu\u00e7\u00e3o da renda do trabalho, a arrecada\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia cair\u00e1, e suas obriga\u00e7\u00f5es continuam. Isso n\u00e3o \u00e9 pior do que enxugar gelo?<\/strong><\/p>\n<p>Sim, a perspectiva de manuten\u00e7\u00e3o da recess\u00e3o para 2017 s\u00f3 agrava a situa\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia. Por sua natureza, mudan\u00e7as da Previd\u00eancia Social somente t\u00eam impacto no m\u00e9dio e longo prazo. Para que tivesse impacto imediato, seria necess\u00e1rio desconsiderar os direitos adquiridos. No per\u00edodo recente, houve o caso da Gr\u00e9cia, em que reduziram os valores das aposentadorias em vigor. Aqui, pelo menos, isso n\u00e3o est\u00e1 sendo proposto.<\/p>\n<p><strong>Dada a constata\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o s\u00f3 a expectativa de vida aumenta como a taxa de jovens, futuros contribuintes da Previd\u00eancia, diminui, qual \u00e9 a maneira ideal de se pensar a sustentabilidade da previd\u00eancia p\u00fablica (ser justa hoje e vi\u00e1vel amanh\u00e3)?<\/strong><\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica p\u00fablica da prote\u00e7\u00e3o \u00e0 velhice, pois \u00e9 disso que estamos falando ao falar da Previd\u00eancia Social, \u00e9 resultado de diversos fatores e recebe diferentes interpreta\u00e7\u00f5es a depender da escola de pensamento de seus analistas. O que \u00e9 indiscut\u00edvel \u00e9 que se trata de uma pol\u00edtica p\u00fablica desenvolvida no capitalismo, que se fez necess\u00e1ria quando as redes de prote\u00e7\u00e3o anteriores (familiares e comunit\u00e1rias) se extinguiram com o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o e de assalariamento. Essa necessidade, no entanto, n\u00e3o foi reconhecida de imediato, e para seu reconhecimento foi fundamental a luta desenvolvida pelos trabalhadores a partir de seus organismos de ajuda m\u00fatua e de seus posteriores sindicatos. Ao fim do per\u00edodo de constru\u00e7\u00e3o da prote\u00e7\u00e3o social, que foi longo, pode-se se dizer que ela foi resultado de um acordo ou pacto estabelecido entre as diferentes classes sociais. Desse pacto, origina-se o desenho da prote\u00e7\u00e3o concedida, sua forma de financiamento e organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pensar outra prote\u00e7\u00e3o social para o risco velhice implica, portanto, pensar em fazer um novo pacto. Para isso, os trabalhadores organizados, os movimentos sociais e os partidos que lhe representam precisam ter for\u00e7a para serem ouvidos. Infelizmente, a situa\u00e7\u00e3o atual parece n\u00e3o ser essa, estando os trabalhadores em franca defensiva.<\/p>\n<p><strong>A proposta do governo, se aprovada, vai tornar a Previd\u00eancia oficial menos atraente do que a previd\u00eancia privada? A senhora prev\u00ea que haver\u00e1 migra\u00e7\u00e3o para a previd\u00eancia privada? Pode ser essa a inten\u00e7\u00e3o de fundo do governo?<\/strong><\/p>\n<p>Migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode haver, pois os trabalhadores do mercado formal estar\u00e3o, como agora, obrigados a contribuir para o INSS. A amplia\u00e7\u00e3o da previd\u00eancia privada ocorrer\u00e1 por outros mecanismos. O primeiro deles \u00e9 que os estados e munic\u00edpios que tiverem institu\u00eddo regime pr\u00f3prio ter\u00e3o, no prazo de dois anos, que criar uma previd\u00eancia complementar. O segundo deles \u00e9 que provavelmente a m\u00e9dia do valor das aposentadorias ir\u00e1 cair, incentivando a que os trabalhadores de maior renda busquem complementar sua aposentadoria junto ao setor privado. E esses trabalhadores podem ser do setor p\u00fablico ou privado.<\/p>\n<p>Essa possibilidade decorre da mudan\u00e7a de c\u00e1lculo do valor da aposentadoria, substituindo o fator e\/ou a f\u00f3rmula 85\/95. Esse novo c\u00e1lculo inicia com 51% da m\u00e9dia dos sal\u00e1rios de contribui\u00e7\u00e3o, sendo acrescido de um ponto porcentual por ano de contribui\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 menos do que receberia hoje, fosse aplicado o fator ou a f\u00f3rmula.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que isso ser\u00e1 mais perverso quanto menor for a renda do trabalhador. Os com renda mais alta, com capacidade de poupan\u00e7a mesmo que pequena, estar\u00e3o suscet\u00edveis a serem convencidos a complementar sua aposentadoria junto ao setor privado de previd\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Se a pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo for extinta (expira ano que vem) e cessarem os aumentos reais, significa um duplo arrocho, se essa reforma passar: 1) dificilmente as pessoas conseguir\u00e3o se aposentar pelo teto; e 2) sem valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, o teto tamb\u00e9m vai perder valor. Isso n\u00e3o seria um efeito tamb\u00e9m alarmante?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida sobre isso. Os benef\u00edcios decorrentes do trabalho (aposentadorias) continuam tendo como piso o sal\u00e1rio m\u00ednimo. Contudo, se a pol\u00edtica de sua valoriza\u00e7\u00e3o for descontinuada, os trabalhadores de mais baixa renda ser\u00e3o aqueles que mais sofrer\u00e3o com a reforma. Apontei os motivos disso ao responder sua outra pergunta. Mas talvez valha a pena refor\u00e7ar que n\u00e3o foi encaminhada proposta de redu\u00e7\u00e3o do teto, mas que garantir uma aposentadoria de valor igual exigiria n\u00e3o s\u00f3 ter contribu\u00eddo sempre pelo teto do sal\u00e1rio de contribui\u00e7\u00e3o como 49 anos de contribui\u00e7\u00e3o. Ou a pessoa come\u00e7a muito mais cedo, ou ela ter\u00e1 de trabalhar por mais tempo. Enfim, o c\u00e1lculo proposto foi concebido para que n\u00e3o se pague a aposentadoria pelo valor do teto.<\/p>\n<p id=\"page-author\">Fonte: Rede Brasil Atual<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apresentada em dezembro pelo governo, a PEC 287 contraria especialistas e centrais sindicais A Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) 287, enviada ao Congresso em dezembro pelo presidente Michel Temer com objetivo de reformar a Previd\u00eancia Social no pa\u00eds, \u00e9 mais uma tentativa de desconstru\u00e7\u00e3o das garantias sociais previstas na Carta de 1988 \u2013 pr\u00e1tica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"","ping_status":"","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-2236","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2236","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2236"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2236\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}