{"id":14604,"date":"2023-10-05T15:21:31","date_gmt":"2023-10-05T18:21:31","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/banco-do-brasil-e-chamado-a-reparacao-historica-por-envolvimento-na-escravidao\/"},"modified":"2023-10-05T15:21:31","modified_gmt":"2023-10-05T18:21:31","slug":"banco-do-brasil-e-chamado-a-reparacao-historica-por-envolvimento-na-escravidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/banco-do-brasil-e-chamado-a-reparacao-historica-por-envolvimento-na-escravidao\/","title":{"rendered":"Banco do Brasil \u00e9 chamado \u00e0 repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, por envolvimento na escravid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O Banco do Brasil tem at\u00e9 o dia 17 de outubro para responder uma s\u00e9rie de quest\u00f5es \u00e0 Justi\u00e7a sobre sua participa\u00e7\u00e3o ou fomento na escravid\u00e3o no pa\u00eds. A data foi estipulada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), em notifica\u00e7\u00e3o sobre abertura de um inqu\u00e9rito civil p\u00fablico para investigar o envolvimento da institui\u00e7\u00e3o no maior crime contra a humanidade praticado no s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>\u201cEm 2020, o movimento Black Lives Matter [Vidas Negras Importam], iniciou a derrubada de v\u00e1rias est\u00e1tuas de personagens que se alimentavam do racismo nos Estados Unidos, e se estendeu at\u00e9 a Europa. Com essa a\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, \u00e9 preciso descortinar o processo de constru\u00e7\u00e3o do Banco do Brasil, derrubando essas est\u00e1tuas que marcaram o passado do banco, beneficiando economicamente v\u00e1rias pessoas com o processo de escraviza\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, torturando e matando negros e negras\u201d, avalia o Secret\u00e1rio de Combate ao Racismo da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Almir Aguiar. \u201cO banco tem o dever de reconhecer os erros do passado. Inclusive, garantir formas de trazer mais negros e negras em seu quadro de funcion\u00e1rios, onde a porta de entrada, por ser um banco p\u00fablico, \u00e9 via concurso\u201d, completa.<\/p>\n<p>A escraviza\u00e7\u00e3o de seres humanos foi praticada no Brasil durante quase tr\u00eas s\u00e9culos e meio. Historiadores calculam que, durante o per\u00edodo, cerca de 5 milh\u00f5es de pessoas foram compulsoriamente retiradas de suas terras e comercializadas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O auge do crime humanit\u00e1rio se deu entre o s\u00e9culo 18 e meados do s\u00e9culo 19. Somente no per\u00edodo de 1830 e 1850, foram cerca de 753 mil seres humanos retirados ilegalmente do continente africado e trazidos ao Brasil. Esse dados tornam o pa\u00eds respons\u00e1vel pelo maior crime contra a humanidade do s\u00e9culo 19.<\/p>\n<h3>Nota do BB sobre movimento de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica<\/h3>\n<p>Em nota, o Banco do Brasil afirmou que ir\u00e1 responder aos questionamentos do MPF e ainda que, \u201ccomo empresa que busca promover a igualdade racial (\u2026) est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal para continuar protagonizando e envolver toda a sociedade na busca pela acelera\u00e7\u00e3o do processo de repara\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>O pedido de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ao BB n\u00e3o \u00e9 novidade e faz parte de um movimento global. Na Inglaterra e Estados Unidos, por exemplo, o Bank of England e as universidades Harvard e Brown University j\u00e1 foram chamados a reconheceu seu papel na escravid\u00e3o e apresentarem a\u00e7\u00f5es de repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda em nota, o BB destacou que mant\u00e9m grupo de discuss\u00e3o sobre diversidade, atrav\u00e9s do qual se re\u00fane com movimentos representativos dentro da empresa, incluindo do BB Black Power, como forma de \u201cunir esfor\u00e7os em a\u00e7\u00f5es direcionadas \u00e0 supera\u00e7\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o racial\u201d.<\/p>\n<p>Para Almir Aguiar, a nota do Banco do Brasil ainda \u00e9 muito branda. \u201cO banco foi constru\u00eddo com sangue negro. Ent\u00e3o, o papel do BB hoje tem que ser o de criar mecanismos claros e eficientes de repara\u00e7\u00e3o \u00e0s injusti\u00e7as cometidas no passado. Uma maneira de fazer isso, por exemplo, \u00e9 tirar resolu\u00e7\u00f5es das pr\u00f3prias reuni\u00f5es com o BB Black Power, como formas de fomentar a participa\u00e7\u00e3o de negros e negras nos concursos p\u00fablicos. E, para com a sociedade brasileira como um todo, estabelecer a\u00e7\u00f5es efetivas de pol\u00edticas p\u00fablicas direcionada a popula\u00e7\u00e3o negra, promovendo a igualdade de oportunidades, combatendo a discrimina\u00e7\u00e3o para que erros do passado n\u00e3o voltem acontecer\u201d, resume o secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 preciso encarar essa discuss\u00e3o, porque esse passado e essa mem\u00f3ria fazem parte e ainda afetam nosso presente, por meio das desigualdades sociais e do racismo estrutural. A sociedade e as grandes institui\u00e7\u00f5es brasileiras precisam se olhar no espelho e enfrentar esse assunto\u201d, observou o procurador Julio Araujo, <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/c89w05408pjo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">em mat\u00e9ria da BBC sobre o tema<\/a>.<\/p>\n<h3>Escravizados como garantia em empr\u00e9stimos<\/h3>\n<p>A a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica que motivou a notifica\u00e7\u00e3o do MPF ao Banco do Brasil \u00e9 assinada por um grupo de pesquisadores e historiadores que lan\u00e7aram \u00e0 luz a forma como a institui\u00e7\u00e3o BB se alimentou e fomentou o tr\u00e1fico de pessoas.<\/p>\n<p>A primeira rela\u00e7\u00e3o entre o BB e a escravid\u00e3o se deu logo quando foi criado, em 1808, com a vinda do rei D. Jo\u00e3o 6\u00ba ao Brasil. Na \u00e9poca, parte do dinheiro da institui\u00e7\u00e3o vinha de taxas cobradas de embarca\u00e7\u00f5es dedicadas ao tr\u00e1fico de pessoas.<\/p>\n<p>Outra forma de incentivo ao com\u00e9rcio de seres humanos era a concess\u00e3o de t\u00edtulos de nobreza, pelo governo imperial, a escravocratas e comerciantes ilegais que colocavam dinheiro no banco.<\/p>\n<p>Em 1829, o BB foi dissolvido por problemas financeiros. Sua refunda\u00e7\u00e3o ocorreu em 1833, a partir dal\u00ed sua rela\u00e7\u00e3o com a escravid\u00e3o se tornou mais intensa, come\u00e7ando pela participa\u00e7\u00e3o de grandes traficantes no grupo de empres\u00e1rios que assinaram o termo de refunda\u00e7\u00e3o do BB, entre eles Jos\u00e9 Bernardino de S\u00e1, maior acionista do BB, em 1853.<\/p>\n<p>Estima-se que Bernardino de S\u00e1 tenha contrabandeado 20 mil africanos entre 1825 e 1851, grande parte teria passado por um barrac\u00e3o que manteve no norte de Luanda, capital de Angola, onde deixava os africanos sequestrados at\u00e9 o embarque para o Brasil.<\/p>\n<p>Outros nomes de traficantes ligados ao BB s\u00e3o Jo\u00e3o Pereira Darigue Faro e Jo\u00e3o Henrique Ulrich, que foram, respectivamente, vice-presidente e diretor do banco.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Pereira Darigue Faro, conhecido tamb\u00e9m como Visconde do Rio Bonito, foi um dos maiores propriet\u00e1rios de escravizados no Imp\u00e9rio, com 540 seres humanos detidos em nome de sua fam\u00edlia. Enquanto Jo\u00e3o Henrique Ulrich chegou a ser flagrado pelo governo de Angola, em 1842, comandando um barrac\u00e3o de escravizados em Luanda.<\/p>\n<p>Os historiadores descobriram ainda que foram os traficantes de pessoas que financiaram o Estado, com t\u00edtulos da d\u00edvida p\u00fablica e capital societ\u00e1rio nos bancos. Mais de 3 mil execu\u00e7\u00f5es de d\u00edvidas no Rio de Janeiro, entre 1830 e 1860, revelaram tamb\u00e9m que escravizados eram utilizados como garantia de pagamento de empr\u00e9stimos no Banco do Brasil.<br \/><em><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/c89w05408pjo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><br \/>*Com informa\u00e7\u00f5es da BBC News Brasil<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Banco do Brasil tem at\u00e9 o dia 17 de outubro para responder uma s\u00e9rie de quest\u00f5es \u00e0 Justi\u00e7a sobre sua participa\u00e7\u00e3o ou fomento na escravid\u00e3o no pa\u00eds. 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