{"id":1260,"date":"2012-05-21T00:00:00","date_gmt":"2012-05-21T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/artigo-do-reitor-jose-vicente-com-os-negros-o-brasil-podera-mais\/"},"modified":"2012-05-21T00:00:00","modified_gmt":"2012-05-21T03:00:00","slug":"artigo-do-reitor-jose-vicente-com-os-negros-o-brasil-podera-mais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/artigo-do-reitor-jose-vicente-com-os-negros-o-brasil-podera-mais\/","title":{"rendered":"Artigo do reitor Jos\u00e9 Vicente: Com os negros, o Brasil poder\u00e1 mais"},"content":{"rendered":"<p>Em 1995, uma pesquisa realizada pelo Datafolha apontou que 89% de brasileiros aceitavam a exist\u00eancia do racismo no pa\u00eds. Somente 10% deles confessavam que j\u00e1 teriam discriminado negros.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Em 2001, quando a UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), pioneiramente, criou cotas para negros no ensino superior, conforme pesquisa do Ipea, os universit\u00e1rios brasileiros eram 97% de brancos. Os professores, pesquisadores e cientistas negros somavam 1%.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Os negros compunham 70% dos que viviam abaixo da linha da pobreza e 63% do quadro dos pobres. Em 2001, era quase imposs\u00edvel encontrar um general negro, um almirante negro, um embaixador negro, um executivo negro comandando qualquer grande empresa do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Como se v\u00ea e sempre se soube, as rela\u00e7\u00f5es entre negros e brancos no Brasil se estruturaram sob uma vis\u00e3o de racismo sem racistas e em uma concep\u00e7\u00e3o amb\u00edgua e irracional de que racismo e discrimina\u00e7\u00e3o racial n\u00e3o existem, por que a ci\u00eancia decretou que ra\u00e7as n\u00e3o existem -se distor\u00e7\u00e3o houver, \u00e9 a discrimina\u00e7\u00e3o social que mantem negros e brancos separados e desiguais.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Na sociedade escravista, a ci\u00eancia n\u00e3o impediu que os negros fossem escravizados. Na sociedade da raz\u00e3o e do mercado, n\u00e3o permitiu que pudessem usufruir o ideal republicano de iguais, tidos por ela como integrantes de ra\u00e7a inferior.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>No plano pol\u00edtico real, nossa mistura de ra\u00e7as e nossa identidade mesti\u00e7a de brancos, negros e \u00edndios esteve longe de significar integra\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o em p\u00e9 de igualdade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Apesar de patrim\u00f4nio coletivo, nossa identidade tripartida tem servido como ideologia articulada que, negando o racismo e diluindo o racial no social, mant\u00e9m privil\u00e9gios, oportunidades, vantagens e est\u00e9tica social exclusiva, da qual os negros n\u00e3o participam.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Uma rep\u00fablica de poucos e uma democracia de desiguais que segrega e interdita os acessos aos 51% dos brasileiros autodeclarados negros.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Apesar dos pesares e a despeito dessas vis\u00f5es e cren\u00e7as equivocadas ultrapassadas, nos \u00faltimos 15 anos a conscientiza\u00e7\u00e3o e o comprometimento de destacados setores da sociedade, do governo, do Congresso e da m\u00eddia nacional na defesa e valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade e igualdade \u00e9tnico-racial e no combate \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o contra os negros, contribu\u00edram para algumas mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas afirmativas de cotas para negros nas universidades p\u00fablicas e, nas universidades privadas, do ProUni e outras importantes realiza\u00e7\u00f5es resultaram no aumento expressivo dos negros no mercado de trabalho, em postos de prest\u00edgio da alta administra\u00e7\u00e3o e mesmo na comunica\u00e7\u00e3o e est\u00e9tica social.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Se n\u00e3o \u00e9 tudo que podemos (e n\u00e3o \u00e9), essas pioneiras e limitadas realiza\u00e7\u00f5es e seus incipientes resultados nos permitiram sair do lugar comum e agir criativamente pra construir consensos e mudan\u00e7as para colocar o pa\u00eds como uma rep\u00fablica moderna, acess\u00edvel e dispon\u00edvel a todos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Por isso, era preciso seguir adiante, era preciso ir al\u00e9m.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A corajosa decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal, que aprovou a constitucionalidade de cotas para negros no ensino superior, nos libertou das amarras de um falso dilema e devolveu o pa\u00eds aos trilhos da racionalidade.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o abandonou os negros e honrou todos os brasileiros. Fortaleceu a justi\u00e7a e definiu os fundamentos que permitir\u00e3o a celebra\u00e7\u00e3o verdadeira da nossa identidade e diversidade racial. Impediu que nos torn\u00e1ssemos gigante de p\u00e9s de barro.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Com os negros, o Brasil fica mais coeso, mais fortalecido, mais produtivo, mais criativo, mais competitivo, mais colorido e melhor. Com os negros, o Brasil poder\u00e1 mais.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>JOS\u00c9 VICENTE, 52, advogado, \u00e9 reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em>Fonte: Folha de S.Paulo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1995, uma pesquisa realizada pelo Datafolha apontou que 89% de brasileiros aceitavam a exist\u00eancia do racismo no pa\u00eds. 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