{"id":11801,"date":"2021-11-24T03:18:37","date_gmt":"2021-11-24T06:18:37","guid":{"rendered":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/forum-discute-luta-contra-o-racismo-e-reflexo-no-mercado-de-trabalho\/"},"modified":"2021-11-24T03:18:37","modified_gmt":"2021-11-24T06:18:37","slug":"forum-discute-luta-contra-o-racismo-e-reflexo-no-mercado-de-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/hostnetart.com.br\/baixada\/forum-discute-luta-contra-o-racismo-e-reflexo-no-mercado-de-trabalho\/","title":{"rendered":"F\u00f3rum discute luta contra o racismo e reflexo no mercado de trabalho"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p>O 6\u00ba F\u00f3rum Nacional Pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro promoveu, nesta ter\u00e7a-feira (23), um debate aprofundado sobre o racismo no Brasil e a inser\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra no mercado de trabalho do ramo financeiro. O evento, promovido pela Secretaria de Combate ao Racismo da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), contou com a participa\u00e7\u00e3o de mais de 100 militantes sindicais de todo o pa\u00eds e foi realizado em videoconfer\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante que sindicatos e federa\u00e7\u00f5es da categoria banc\u00e1ria fa\u00e7am esse debate para conter esse racismo. Foi muito boa a participa\u00e7\u00e3o de banc\u00e1rias e banc\u00e1rios de v\u00e1rios estados do Brasil no F\u00f3rum deste ano. Tivemos cerca de 180 participantes, uma boa discuss\u00e3o que s\u00f3 nos anima a continuar a luta para ampliar a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra no ramo financeiro, com bons sal\u00e1rios e trabalhos com respeito e dignidade\u201d, avaliou o secret\u00e1rio de Combate ao Racismo da Contraf-CUT, Almir Aguiar.<\/p>\n<p>A presidenta da Contraf-CUT, Juvandia Moreira, acompanhou os debates. \u201c\u00c9 muito atual e necess\u00e1rio fazer esse debate. O racismo tem um reflexo no mercado de trabalho e na vida como um todo. Nos bancos as mulheres negras recebem 47% do que recebem os homens n\u00e3o negros. Precisamos acabar com isso. O f\u00f3rum faz esse debate, para avan\u00e7ar a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra no mercado de trabalho. Isso se reflete na nossa categoria, com uma presen\u00e7a muito pequena. Negras e negros t\u00eam dificuldade de ascens\u00e3o profissional no banco\u201d, afirmou Juvandia Moreira na abertura do f\u00f3rum.<\/p>\n<p>A presidenta da Contraf-CUT lembrou que sua participa\u00e7\u00e3o na vida sindical serviu para enxergar melhor a diversidade da classe trabalhadora. \u201cO sindicato \u00e9 uma universidade para nos tornarmos pessoas melhores. Influenciamos muito a sociedade para fazer a mudan\u00e7a para um mundo melhor, onde as pessoas se amem. N\u00e3o podemos ver o racismo e achar normal. O que aconteceu no Carrefour, quando um rapaz negro foi morto por seguran\u00e7as, acontece todo o dia. Temos que lutar muito e \u00e9 uma luta boa de se lutar, que a gente faz com gosto\u201d, finalizou Juvandia.<\/p>\n<p><strong>Cultura negra<\/strong><\/p>\n<p>Ramatis Jacino, professor da Universidade Federal do ABC, come\u00e7ou sua fala destacando que a hist\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o come\u00e7a com a escravid\u00e3o. \u201c\u00c9 muito mais antiga, remonta h\u00e1 5 mil anos, no m\u00ednimo. Nossas civiliza\u00e7\u00f5es deixaram um legado, como o Egito, a Abiss\u00ednia, o reino de Aksun, o reino do Mali, o imp\u00e9rio Ashanti. A contribui\u00e7\u00e3o do continente africano foi al\u00e9m das artes e do que foi folclorizado. Se d\u00e1 nas mais diversas \u00e1reas da ci\u00eancia\u201d, destacou. Ramatis lembrou que foi o escravizado africano que teve papel importante na agricultura do a\u00e7\u00facar e do caf\u00e9 na economia brasileira, assim como o conhecimento de metalurgia para a explora\u00e7\u00e3o das Minas Gerais.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi destacado por Ramatis a luta de resist\u00eancia da popula\u00e7\u00e3o negra contra a escravid\u00e3o: \u201cHavia as resist\u00eancias como a Balaiada, Sabinada, Rebeli\u00e3o do Hau\u00e7\u00e1s na Bahia, seja na exist\u00eancia de um pa\u00eds dentro do pa\u00eds que durou mais de 90 anos, que era chamado de Angola Jamba ou de Palmares. N\u00e3o era um quilombo, mas um verdadeiro pa\u00eds formado por v\u00e1rios quilombos\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Ramatis falou que a desigualdade entre brancos e negros prosseguiu ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o sob novas formas. \u201cIsso se d\u00e1 ao final do s\u00e9culo 19, ao longo do s\u00e9culo 20 e se mantem no s\u00e9culo 21. A quest\u00e3o social do racismo passa pela discuss\u00e3o pol\u00edtica de classes. \u00c9 o movimento sindical que tem todos os instrumentos para fazer esse enfrentamento\u201d, afirmou.<\/p>\n<p><strong>Genoc\u00eddio<\/strong><\/p>\n<p>A advogada Tamires Sampaio, mestra em Direito Pol\u00edtico e Econ\u00f4mico e diretora do Instituto Lula, falou sobre genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra e suas rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. \u201cAs institui\u00e7\u00f5es, em especial o sistema de justi\u00e7a criminal e seguran\u00e7a, promovem o processo de encarceramento e naturaliza\u00e7\u00e3o da morte. \u00c9 s\u00f3 ver a forma como a popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 retratada na TV, nos filmes, nos programas jornal\u00edsticos. A rela\u00e7\u00e3o do racismo com a ideologia faz com que a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o negra absorva essas imagens. \u00c9 para o controle da popula\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou Tamires.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia que atinge a popula\u00e7\u00e3o negra tamb\u00e9m se estende \u00e0s suas lideran\u00e7as. \u201cEst\u00e3o sendo atacadas quando ocupam espa\u00e7os de poder. Vejam o que aconteceu com a Marielle, com as nossas parlamentares eleitas em 2018 e 2020. N\u00e3o d\u00e1 para falar sobre o combate ao racismo se n\u00e3o falarmos no combate a sistema econ\u00f4mico\u201d, disse.<\/p>\n<p><strong>Dieese<\/strong><\/p>\n<p>A economista Nadia Vieira de Souza, do Departamento Intersindical de Estat\u00edsticas e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese) de Bras\u00edlia. Apresentou no f\u00f3rum n\u00fameros que evidenciam a desigualdade racial no Brasil e tamb\u00e9m na categoria banc\u00e1ria. Citou dados da Rela\u00e7\u00e3o Anual de Informa\u00e7\u00f5es Sociais do Minist\u00e9rio da Economia que mostram que o rendimento m\u00e9dio mensal na categoria banc\u00e1ria dos negros em rela\u00e7\u00e3o aos brancos \u00e9 sempre menor. Enquanto homens n\u00e3o negros t\u00eam remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de R$ 10.169, os banc\u00e1rios negros recebem R$ 7.938. Mulheres n\u00e3o negras recebem no setor banc\u00e1rio uma m\u00e9dia de R$ 7.849, enquanto que mulheres negras t\u00eam rendimento m\u00e9dio de R$ 6.363.<\/p>\n<p>Banc\u00e1rias e banc\u00e1rios negros tamb\u00e9m ocupam menos cargos de dire\u00e7\u00e3o. S\u00e3o apenas 5% dos cargos de diretoria e superintend\u00eancia, 15% das ger\u00eancias e 17% de cargos de supervis\u00e3o, chefia e coordena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>A\u00e7\u00f5es afirmativas<\/strong><\/p>\n<p>O advogado Gabriel Sampaio falou sobre conquistas hist\u00f3ricas, a\u00e7\u00f5es afirmativas na luta contra o racismo na vida e no trabalho. \u201cO Brasil forma em sua base de legisla\u00e7\u00e3o o enraizamento do projeto racista. Nossa primeira constitui\u00e7\u00e3o optou por legitimar o modelo escravocrata. No final do s\u00e9culo 19, nossas elites, sabendo da transi\u00e7\u00e3o ao trabalho livre, aprovam algumas normas para preparar o terreno econ\u00f4mico para o trabalho livre e determinam o papel de subalterniza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra\u201d, afirmou Gabriel Sampaio.<\/p>\n<p>Para o advogado, o Brasil foi consolidando, ao longo do tempo, um projeto de necropol\u00edtica. \u201cO estado, pelas suas formas de poder, determina quais s\u00e3o os corpos mat\u00e1veis, mortes toleradas do ponto de vista da for\u00e7a. Isso \u00e9 parte do nosso passado e tamb\u00e9m do nosso presente\u201d, afirmou Gabriel Sampaio. O advogado avaliou que as a\u00e7\u00f5es afirmativas chegaram atrasadas. A\u00e7\u00f5es como a distribui\u00e7\u00e3o de terras para os trabalhadores escravizados, ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o, nunca aconteceram. \u201c\u00c9 somente na primeira d\u00e9cada dos anos 2000 que s\u00e3o consolidadas a\u00e7\u00f5es afirmativas. Somente em 2014 essa pol\u00edtica afirmativa \u00e9 aplicada no servi\u00e7o p\u00fablico\u201d, destaca.<\/p>\n<p><strong>Est\u00e9tica colonialista<\/strong><\/p>\n<p>A professora Anatalina Louren\u00e7o, dirigente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de S\u00e3o Paulo (Apeoesp), contou que descobriu que era negra aos 13 anos. \u201cAt\u00e9 ent\u00e3o achava que era morena. Vinha da escola distra\u00edda, dei um encontr\u00e3o em um homem e ele gritou \u2018saia da minha frente, sua preta desgra\u00e7ada\u2019. Fiquei chocada quando ele gritou que eu era preta. Minha est\u00e9tica era colonialista, o que n\u00e3o era verdade\u201d, contou Anatalina.<\/p>\n<p>No seu trabalho, Anatalina diz que costuma ouvir relatos de jovens alunos negros que t\u00eam dificuldades em entrar nas ag\u00eancias banc\u00e1rias. \u201cSempre s\u00e3o muito observados, como estivessem com alguma arma debaixo da roupa. Estamos dentro dessa sociedade e cotidianamente ouvimos uma s\u00e9rie de atitudes que constroem estere\u00f3tipos, colocando a juventude negra como delinquente. Este estere\u00f3tipo permeia o inconsciente coletivo. O racismo mata a psique da popula\u00e7\u00e3o negra. Constr\u00f3i um mecanismo que nos coloca sempre no pior papel poss\u00edvel\u201d, afirma Anatalina.<\/p>\n<p>Para a professora, o primeiro passo \u00e9 reconhecer que qualquer debate passa por discutir o racismo. \u201cQualquer pauta, reforma administrativa, tribut\u00e1ria, impacta trabalhadoras negras e trabalhadores negros. \u00c9 imposs\u00edvel falar em democracia, justi\u00e7a social com racismo\u201d, diz Anatalina.<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia contra mulheres negras<\/strong><\/p>\n<p>A major Denice Santiago, da Pol\u00edcia Militar do Estado da Bahia, falou sobre empoderamento das mulheres negras e viol\u00eancia na pandemia. \u201cO F\u00f3rum de Seguran\u00e7a P\u00fablica diz que ocorre uma viol\u00eancia dom\u00e9stica a cada oito minutos. \u00c9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica, de seguran\u00e7a, de assist\u00eancia social. \u00c9 um problema da nossa cultura e da nossa sociedade. As mulheres negras t\u00eam menos acesso ao apoio do poder p\u00fablico e essa viol\u00eancia chega muito mais perversa e contundente \u00e0s mulheres negras\u201d, afirmou a major Denice.<\/p>\n<p>A pandemia aumentou os \u00edndices de viol\u00eancia contra as mulheres. \u201cA pandemia fez com que a mulher passasse a viver mais tempo com seu agressor. Ela estava dentro de um espa\u00e7o, aprisionada com seu agressor. Isso fez os n\u00fameros crescerem, temos o aumento dos casos de feminic\u00eddio em todo o pa\u00eds. Uma em cada quatro mulheres acima de 16 anos sofreu pelo menos uma agress\u00e3o, um tipo de viol\u00eancia ao longo do per\u00edodo da pandemia\u201d, contou Denice.<\/p>\n<p>Para a major, que est\u00e1 h\u00e1 31 anos na PM baiana, o racismo estrutural est\u00e1 em todos os lugares. \u201cQuem s\u00e3o as mulheres negras de que estamos falando. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlio (PNAD) diz que s\u00e3o 53 milh\u00f5es de mulheres negras. Todas as viol\u00eancias contra as mulheres alcan\u00e7am n\u00f3s, mulheres negras, de uma forma mais dolorosa\u201d, ressaltou a major Denice.<\/p>\n<p><strong>Ativismo pol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Ana Cruz, ativista pol\u00edtica e coordenadora do movimento cultural Mulheres Negras Construindo Visibilidade, falou sobre a import\u00e2ncia do ativismo pol\u00edtico das mulheres negras. Ana come\u00e7ou falando sobre a aplica\u00e7\u00e3o da lei federal que estabelece no curr\u00edculo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da tem\u00e1tica Hist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileira. \u201cO problema \u00e9 que quem tem que sancionar s\u00e3o os munic\u00edpios e os estados e eles n\u00e3o o fazem. O que vai fazer a lei funcionar \u00e9 a nossa articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Tem que acontecer mais engajamento. Essa lei \u00e9 revolucionaria para desconstruir o racismo a partir da educa\u00e7\u00e3o\u201d, destacou Ana Cruz.<\/p>\n<p>A ativista colocou algumas quest\u00f5es para o movimento negro: \u201c\u00c0s vezes a gente se pensa de forma muito pequena, como se a escraviza\u00e7\u00e3o fosse uma coisa n\u00e3o elaborada. Os colonizadores pensaram t\u00e3o bem que n\u00e3o conseguimos nos livrar da persegui\u00e7\u00e3o da escraviza\u00e7\u00e3o at\u00e9 hoje. Se a gente n\u00e3o construir uma luta para ocupar as institui\u00e7\u00f5es, vamos demorar 200 anos para resolver o racismo no Brasil. As mulheres negras s\u00e3o 27% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, e 1% na C\u00e2mara dos Deputados. Elas n\u00e3o t\u00eam tempo e est\u00e3o tentando sobreviver. Como a gente desconstr\u00f3i essa viol\u00eancia que as mulheres negras, os homens negros e a juventude negra sofrem?\u00a0 O maior desafio \u00e9 pensar que n\u00f3s temos muitas dificuldades de nos compreendermos enquanto na\u00e7\u00e3o afro-brasileira, com um legado hist\u00f3rico enorme\u201d, afirmou Ana Cruz.<\/p>\n<p><strong>Mo\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Ao final dos pain\u00e9is, os participantes do f\u00f3rum aprovaram uma mo\u00e7\u00e3o de rep\u00fadio \u00e0 pol\u00edtica de racismo do governo Bolsonaro, materializada na figura do atual presidente da Funda\u00e7\u00e3o Palmares, Sergio Camargo.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>Fonte: Contraf-CUT<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 O 6\u00ba F\u00f3rum Nacional Pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro promoveu, nesta ter\u00e7a-feira (23), um debate aprofundado sobre o racismo no Brasil e a inser\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra no mercado de trabalho do ramo financeiro. 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